Opinião

António Oliveira Senador da Fundação do Futebol

Os jogos da mente

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Os ‘mind games’, ou jogos da mente como referiu Rui Vitória, ficaram celebrizados por José Mourinho no seu início de carreira, mas terão tido José Maria Pedroto como precursor. A blindagem do balneário dando a cara pelo grupo, a motivação interna, a identificação de inimigos exteriores e a tentativa de fragilizar os adversários através de mensagens difundidas pelos ‘media’ foram estratégias que passaram a alimentar o quotidiano do futebol nacional e internacional.

O treinador do Chelsea, que já protagonizou duelos intensos com Arsène Wenger, chegou a afirmar o seguinte no ano passado: "Tudo o que faço e digo são ‘mind games’. A única coisa que não são ‘mind’ games são os resultados." Este é um retrato do que se passa no futebol moderno. Joga-se dentro e fora das quatro linhas e qualquer declaração para o exterior é preparada ao mais ínfimo pormenor para fazer mossa nos oponentes e retirar a pressão sobre os elementos da sua equipa. Estas mensagens fazem parte do espetáculo. E podem valer vitórias.

Cada técnico tem o seu estilo. Uns são mais expansivos, outros mais reservados, há os que gostam de provocar e aqueles que optam pela cordialidade. Tudo isto tem impacto na forma como se relacionam com os jogadores, adeptos e jornalistas. Se não controlarem este vertente comunicacional que passou a fazer parte do jogo, as conferências de imprensa podem rapidamente transformar-se num ambiente hostil. E não se pense que meras batalhas verbais são solução. É preciso saber usar bem o dom da palavra para não se acabar como vítima do que foi dito.

Com a vinda de Jorge Jesus para o Sporting, os ‘mind games’ parecem regressar em força no panorama nacional. Começaram com a partida da Supertaça, onde as insinuações à falta do "cérebro" da equipa encarnada pareciam querer tentar influenciar as decisões do treinador do Benfica, de modo a este alterar a tática e alinhar com uma equipa sem dois avançados. E têm agora um novo episódio na recente entrevista dada a Record, com o treinador leonino a deixar entender que Rui Vitória fez exatamente o que Jesus pretendia.

Além disso, Jorge Jesus afirmou que chegou a pensar que podia ter rumado a outras paragens portuguesas no início da temporada. Parece óbvio que estava a falar do FC Porto. Fica por se saber se existiram ou não contactos nesse sentido, mas é evidente a tentativa de fragilizar a posição de Julen Lopetegui. Aqui está a falar o treinador do Sporting. Ao atirar que poderia ter seguido para o Dragão e, mais do que isso, parece um desejo que ainda pretende cumprir no futuro, o técnico não deixa de com isto dar uma chamuscadela no seu colega espanhol. Ciente, até porque esteve num dos lados da barricada, do domínio desportivo que Benfica e FC Porto têm tido no futebol português nos últimos anos, estas alfinetadas de Jesus não parecem inocentes e enquadram-se na estratégia de voltar a afirmar o Sporting como um candidato ao título de pleno direito. Cabe aos leões desafiar a hegemonia dos rivais, e é isso que prometem fazer também na guerra das palavras.

Do outro lado, as respostas de águias e dragões ainda não se fizeram ouvir. Para já, apenas silêncio. Por quanto tempo? Porventura estão a aguardar um timing mais oportuno. O foco é a preparação das respetivas equipas, que ainda não se encontram devidamente afinadas. Mas à medida que a competição for avançando, os "jogos da mente" prometem aquecer as emoções.

O CRAQUE

Com o pé quente

Com um arranque de época em grande estilo, André Silva parece apostado em confirmar tudo o que de bom se tem dito dele em relação ao futuro. Os cinco golos em igual número de jogos, assim como o hat trick nos sub-21, fazem dele o mais prolífico avançado português do momento. O jovem avançado de 19 anos surge em pleno processo de crescimento na equipa B portista, mas já pede (e merece) oportunidades no conjunto principal. Boa técnica, faro de golo, velocidade e jogo aéreo. O futebol nacional passa por este talento.

A JOGADA

Futebol solidário

O futebol é o espetáculo do povo, move paixões e multidões e tem também um papel social e solidário a desempenhar. Perante o flagelo dos refugiados, é louvável a decisão da UEFA e dos clubes participantes da Liga dos Campeões e da Liga Europa de doarem um euro a organizações humanitárias por cada espectador dos jogos das duas primeiras jornadas. A sugestão partiu do FC Porto, o que também mostra que os portugueses sabem estar à altura em momentos como este. É bom quando o futebol luso é exemplo de fair play.

A DÚVIDA

Tulipas sem nexo

O enxovalho de que Martins Indi foi alvo, depois das críticas recebidas de colegas e selecionador holandeses, após ter sido expulso frente à Islândia, foi verdadeiramente lamentável. Num grupo holandês em que há jogadores com cadastro bem mais reprovável, que envolve até agressões a colegas de equipa, o central, um jogador correto e leal, acabou por servir de bode expiatório. No jogo seguinte, sem o portista, a Holanda voltou a perder com a Turquia e corre sérios riscos de ficar fora do Euro’2016. Será que a culpa também foi de Indi?

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