Os médios-centro
DISPARATES – O trinco tem cara de mau e dois pés que parecem tijolos; bate em tudo o que mexe à sua frente (às vezes até acerta na bola) e as qualidades reconhecidas são a generosidade de correr hora e meia e a capacidade de ir matando jogo (e ferindo adversários) ali à frente da defesa, único terreno que domina e no qual se sente como em casa; o trinco anda ali para roubar a bola e depois, quando a conquista, gritar com todas as forças "socorro, eu não sei o que hei-de fazer com esta coisa nos pés". E se o leitor tiver imaginação para aumentar este chorrilho de disparates, não se acanhe e vá por aí fora.
GRITARIA – Incluir um trinco na equipa ainda vá lá, se todas o utilizam é porque tem alguma utilidade; dois já são um exagero; três pode ser mesmo um caso de polícia ou numa hipótese mais simpática justificar o internamento de quem se lembrou de tal coisa. Esta concepção exterior, que provoca ciclicamente gritarias histéricas e pouco inteligentes sobre os méritos dos jogadores e as decisões dos treinadores, faz sempre sentido, excepto num momento muito especial: quando a equipa ganha. Nessa altura, pode até jogar com cinco fechaduras, que também está bem. Mesmo que esteja tudo na mesma.
NOBREZA – A questão é mais complicada do que parece. O trinco nasceu da cobardia de treinadores incapazes de interpretar a nobreza do médio-centro, que tem a idade do grande futebol e contribuiu com nomes próprios para a história do jogo ao longo de quase um século. Mas o conceito pejorativo do trinco também tem sido alimentado injustamente pela falta de conhecimento revelada por quem continua a reduzir o Mundo a treinadores ofensivos e defensivos, a equipas que jogam umas ao ataque e outras à defesa, e que a solução para tudo é tirar gente atrás para meter à frente.
FALÁCIA – O futebol em Portugal está reduzido à discussão de trincos a mais e pontas-de-lança a menos, enquadramento que marca, também, os últimos dez anos da selecção. É uma questão falaciosa, sem verdades absolutas, por depender do modo como as equipas se sentem mais confortáveis e acima de tudo da qualidade dos jogadores. Quando se reclama que Pauleta, Nuno Gomes, João Pinto, Figo, Rui Costa e Sérgio Conceição devem jogar juntos e de início, não se vê todo o problema. O equilíbrio da equipa e o bom senso obriga a que um deles fique sempre de fora, talvez dois se o adversário for de média envergadura.
BOAS NOTÍCIAS – A I Liga está bem servida de médios-centro portugueses: Petit, Costinha, Fernando Meira, Ednilson, Paulo Bento e Rui Bento. Todos eles são muito mais que trincos e qualquer deles escapa ileso ao perfil daquelas figuras tantas vezes apresentadas como sendo portadores de doenças contagiosas e de nula utilidade em termos de construção. Neste capítulo a melhor notícia ao cabo de cinco meses de época, ou seja, sensivelmente a meio caminho do Mundial do próximo ano, é o restabelecimento de Paulo Sousa. A recuperar das mazelas físicas que o marcaram nos últimos anos, efectuou frente ao FC Porto uma actuação modelar. Ao nível do melhor que já lhe vimos fazer.
