Os "meninos" Jesus e Machado
Futebolisticamente falando, o Benfica-Nacional não tem muito que se lhe diga. Os encarnados venceram e saltaram para a liderança da Liga, voltaram a exibir um tremendo caudal ofensivo, revelaram eficiência digna de realce na hora da finalização e confirmaram que possuem vários elementos em verdadeiro estado de graça (pese os 3 golos de Cardozo ou os 2 de Saviola, quem mais gostei de ver foi o improvisado lateral esquerdo Fábio Coentrão). Resumidamente - e mesmo admitindo que os insulares tiveram postura interessante durante toda a primeira parte -, aconteceu ao Nacional exactamente o mesmo que já se passou com outros emblemas: de repente estavam a ser goleados e nem perceberam porquê...
Dentro do campo, o pior elemento foi o árbitro (e respectivos auxiliares ou assistentes como agora fica bem dizer). Foram erros a mais para apenas 90 minutos, com situações de "offside" mal avaliadas (por exagero ou defeito), um lance de golo anulado de forma incorrecta, um penálti assinalado que não passou de simulação e uma chuva de cartões que dá a ideia de se ter assistido a uma autêntica batalha campal quando, pura e simplesmente, só tivemos as habituais picardias próprias de um embate "quentinho".
Mas, como todos viram e ouviram, fora do campo - junto ao relvado e na zona de entrevistas rápidas - houve mais situações negativas, protagonizadas pelos técnicos que, curiosamente, são bastante diferentes mas, nesta jornada, acabaram por ser muito iguais, comportando-se como meninos da escola.
Acho normal que Machado e Jesus não sejam amigos. O facto de partilharem a mesma profissão não os obriga a gostar um do outro. E até me parece bem que sendo do conhecimento público as suas querelas que, pura e simplesmente, não se cumprimentem antes ou depois das partidas. Não chego ao ponto de dizer que o "fair play" é uma treta, mas não concordo com hipocrisias, com gestos falsos só para ficar bem na televisão ou nas fotografias. E a polémica ou rivalidade, entre clubes ou treinadores, faz parte do futebol. Em Portugal e em qualquer outro lado. Dispensável é ver os técnicos de dois dos emblemas lusos envolvidos nas competições europeias não terem o discernimento necessário para evitar comportamentos desadequados.
Jesus, aquando do 2-1, exagerou nas comemorações do golo, correndo de forma extemporânea (mas sabendo muito bem para onde se dirigia) e gritando algo que não consegui decifrar. Ficou tão empolgado que, mais tarde, até fez confusão com o número de golos que a sua equipa tinha apontado em cada parte. Depois, pior ainda, esteve aos 4-1, apontado quatro dedos na direcção do banco contrário, enquanto parecia dizer adeus ao seu opositor. No calor do embate, o responsável encarnado esqueceu-se que, estando a viver um período de grande fulgor, não passa - até à data - de um treinador com um currículo vulgar. Sim, vulgar, porque ser quarto ou quinto é muito relevante quando se está à frente de emblemas de média dimensão, mas a história não se faz desses resultados.
Machado esperou pelo fim do jogo para, no "flash interview", se vingar, apelidando o oponente de cretino. Esteve mal também. Possuindo um vasto vocabulário e sendo culturalmente evoluído, não precisava de baixar o nível para condenar os gestos de Jesus. Ao fazê-lo, deitou fora uma oportunidade soberana para vincar aquilo que queria demonstrar: que tinha mais classe.
Em suma, Jesus e Machado - que são dois dos melhores treinadores nacionais da actualidade - portaram-se como meninos da escola. Gestos irreflectidos, declarações evitáveis e umas quantas queixinhas pelo meio não os dignificaram. Mas, por outro lado, animaram a malta e deram um "colorido" adicional ao espectáculo. E bem vistas as coisas, por vezes o cinzento futebol luso precisa de alguma agitação...
