Os olhos de quem vê
Creio que quase todos aqueles que fazem o favor de me ler sabem que sou do Belenenses. Lembro esse pormenor para sublinhar que sou também parte interessada no que escreverei a seguir. E vou já mais longe: se o resultado do último FC Porto-Belenenses dependesse do valor actual das equipas e da produção desenvolvida em campo estaria mais certo o 6-0 do que o 4-1.
Dito isto, quero acrescentar o que vi. Vi uma entrada do Deco "acabar" com o Neca. Vi o Jorge Costa levar o primeiro cartão amarelo quando não devia estar já em campo, pois o árbitro já lhe tinha perdoado dois. Vi, por muito menos, o juiz ir "amarelando" quase toda a defesa do Belenenses ainda antes do intervalo.
Vi o McCarthy empurrar o Filgueira e marcar o primeiro golo. Não vi o Wilson derrubar o Sérgio Conceição. Vi o Antchouet levar tanta tareia que acabou por ter de sair em braços, etc, etc... Chega de visões. Sim, visões. Porque no dia seguinte não faltaram jornalistas - incluindo os do Record - a tecer loas ao árbitro e a tocar violinos ao FC Porto - pelo que fez e pelo que não fez. Não, ainda bem que não sou fanático. De contrário, sofreria muito por julgar ter visto o que não aconteceu.
Manuel Fernandes
Lá vamos tendo uma alegria de vez em quando e lá tenho eu de elogiar Camacho outra vez - qualquer dia ainda pensam que estou feito com o homem. A verdade é que o técnico espanhol, depois de ter apostado em Moreira - antes da "operação Ricardo" e após ela ter falhado, quando todos temiam o pior - e com os espectaculares resultados que estão à vista, de ter insistido na opção João Pereira e de a ter igualmente ganho, aparece agora com a nova "pérola negra" da Luz, um Manel de 18 anos cheio talento e de genica, herdeiro de um nome histórico do nosso futebol. "Quem não tem cão caça com gato", diz o ditado. E que bem Camacho tem caçado com os seus gatinhos!
Pacheco
Irresistível o apelo que João Loureiro foi vendo crescer dentro de si para ir buscar de novo Jaime Pacheco. E como Sanchez sentiu em silêncio essa síndrome do pai que partiu, ficando... Pacheco quis seguir a esteira de Toni, tentar vencer longe do emblema que o fez feliz e, como Toni, em Sevilha ou em Bordéus, falhou em Maiorca.
Vê-se agora que sem culpa própria, olhando como a teia insular escapa da mão segura de Luis Aragonés. O certo é que Pacheco está de volta e não recebe má herança: o Boavista está a escassos 3 pontos do quarto lugar e tem a defesa menos batida da SuperLiga, FC Porto à parte. Mas o Jaime pode estar a tornar-se num funcionário do Bessa. E depois de Loureiro?
Palatsi
Nas minhas recordações do futebol - cada vez mais longínquas, ai, ai... - há um guarda-redes que nunca mais esquecerei: o "magriço" José Pereira. Cresci a vê-lo jogar, ele que jogou para aí 15 anos a alto nível. Foi o guardião que fez as defesas mais fenomenais que alguma vez vi. Mas foi, ao mesmo tempo, uma fonte permanente de desgostos, tantos e tão inacreditáveis "frangos" dava. Um deles, talvez o mais famoso, foi quando o Acúrsio, guarda-redes do FC Porto, lhe marcou um golo de baliza a baliza, aproveitando os ventos do Restelo. E o Zé a recuar, a recuar, e "ela" a passar-lhe por cima! Revi o filme todo, agora com Palatsi e João nos papéis principais.
Sir José & Mr. Alex
Devem ter aprendido com os grandes "diestros", que preparam as "faenas" com arte, calma e consciência de que o adversário tem de levar a estocada na altura em que já mal tiver forças para investir... Quando vi Benni McCarthy "afastar" Deco e Ricardo Fernandes e empunhar o estoque da marcação daquele livre decisivo, julguei que se ia perder a última oportunidade de matar a fera. Mas o sul-africano sabe que os deuses estão com ele.
E perante um público em silêncio, agarrado à cabeça, antevendo o pior, mediu a força e a colocação do remate, que executou com a precisão de um derradeiro passe de peito. O guarda-redes estava sobre brasas, a bola queimou-lhe as mãos. E foi o inevitável Costinha - já se sabe que quando não é o Costa é o Costinha... - quem acabou por abater o animal, em cima da hora, quando ele já não podia espernear mais. Como se tudo estivesse escrito nas estrelas, como se o futebol fosse uma ciência exacta.
"Bye, bye, Mr. Alex", terá pensado Sir Mourinho a caminho das cabinas. Era a glória, manchada, aliás, por gestos ordinários e dispensáveis. Quanto a McCarthy, sabem a minha opinião: que vá muito a Vigo e volte sempre.
Luisão
O golo do Gil Vicente ainda está na retina dos benfiquistas: jogada "embrulhada" junto à pequena área, remate de Braima, a bola a bater nas pernas de um defesa encarnado e a entrar. Escusado seria perguntar a quem não soubesse da missa quem teria sido o infortunado defesa - qualquer pessoa responderia: Luisão.
Têm sido tantos os azares do brasileiro - ou porque não salta, ou porque salta e perde, ou porque a bola tabela nele, ou porque se aleija - que já não sei se não se trata de qualquer falta de estrelinha contra a qual não existe remédio. A seu favor, por en- quanto, só o facto de o Brasil não se ter qualificado para os Jogos Olímpicos. Sem a sua "ajuda". Credo!
Perguntas leva-as o vento...
1. Quem foi o grande treinador que subiu a Gaia para um agradável jantar com o seu antigo (e futuro, e futuro...) patrão e que conseguiu sair do restaurante um minuto antes de chegar a reportagem de Record?
2. Quem é o ex-futebolista que ameaça meter um processo judicial a todas as publicações que ousarem falar no Seu nome sem a Sua divina autorização?
3. Quem é o jogador que estava há muito à espera de ser convocado e foi-o, finalmente, mas para a lista de "embaixadores" do Ano Europeu de Educação pelo Desporto?
4. Por que terá o Campeão Mundial de Sobras deixado de actualizar as suas temerárias e grandiosas tiragens?
O vento traz as perguntas, o vento leva as respostas...
