Os pontas-de-lança
ESPECIALISTAS – Quantas vezes ouvimos falar em pontas-de-lança de raiz, como se o termo nos fosse familiar, devido à sua excessiva utilização durante certo período do futebol português? Na campanha para o Euro-2000, enquanto Pauleta e Nuno Gomes não convenciam Humberto Coelho dos benefícios de utilizar alguém que dominasse por experiência, estudo e intuição o espaço de ataque mais próximo da baliza adversária, a reclamação de que faltava presença e fogo na frente de ataque da selecção nacional foi acompanhada pelos golos de João Pinto (nove) e Sá Pinto (seis). Não sendo especialistas da grande área, os dois avançados traduziram em números a classe de uma equipa disposta a rectificar o histórico desastre que foi o desperdício o Mundial de 1998.
PREFERÊNCIAS – Nuno Gomes e Pauleta serviram de prova factual para quem defendia a inclusão de um avançado mais apto a jogar no confronto directo com as defesas, em detrimento de dois jogadores hábeis, talentosos e dinâmicos, mas que em determinados momentos não tinham o físico e toda a informação para resolver alguns problemas. Porque em termos conceptuais não existem verdades absolutas no futebol, o máximo a que devemos chegar não pode exceder a mera opinião: as equipas devem ter, em cada lugar, jogadores habilitados a cumprir a tarefa. Logo, como início de conversa, é melhor jogar com Pauleta a ponta-de-lança (que é o lugar dele) do que apresentar Sá Pinto (que ali se limita a desempenhar com talento uma tarefa diferente da que habitualmente cumpre). Como no Real Madrid, por exemplo, é melhor jogar com Raúl no apoio a Morientes.
SEMELHANÇAS – Quando não tem Morientes, Del Bosque joga com Raúl sozinho entre os defesas adversários e ninguém se queixa. À custa de versatilidade e intuição, o número 7 madridista cumpre sempre e normalmente faz golos. Não marca por ser mais poderoso que os defesas, mas porque lhes foge com suprema inteligência. Em Portugal, no mesmo fim-de-semana em que José Mourinho, contra o hábito de uma convicção pessoal e da ideia global da própria equipa, juntava dois especialistas na frente de ataque do FC Porto, Jesualdo Ferreira via-se na contingência de repetir o que já fizera em Barcelos actuar sem pontas-de-lança, apostando na mobilidade das suas unidades mais criativas. Ambos jogavam em casa e tinham como adversários equipas em posição delicada na tabela. Os resultados é que foram diferentes.
ALTERNATIVAS – O FC Porto, com Pena e McCarthy, não marcou ao Alverca; o Benfica sem Mantorras, Jankauskas, Sokota e Mawete fez cinco ao Farense. Nada disto aconteceu só por causa da solução ofensiva encontrada, mas porque a inspiração individual e colectiva foi distinta; porque nas Antas jogaram duas equipas e na Luz só esteve uma; porque o terceiro lugar para uns é desmotivante e para outros o maior objectivo da época. Percebendo tudo isso, importa insistir na ideia de que, sendo preferível jogar com especialistas, existem alternativas válidas para o ataque à baliza adversária, cuja solução passa por atacantes como os já referidos Raúl (muito golo), João Pinto (muito futebol) e Sá Pinto (muito jogo). E para confirmar a ideia segundo a qual as verdades absolutas não passam de pretenciosismos sem consistência, até há o exemplo do Belenenses: quem havia de dizer que um jogador frágil como Cafú, que derruba por velocidade e insistência, havia de transformar-se no goleador de referência do arranque azul para o topo da tabela?
