Os problemas são outros
Odesgaste era evidente e o elo mais fraco, como costuma acontecer nestas coisas, foi quem pagou a fatura. Uma coisa é certa: não é a saída de Paulo Bento do lugar de selecionador que vai resolver os problemas do futebol português. A par desta decisão, que o tempo dirá se foi correta ou não, compete à FPF tomar medidas que possam dar mais força à nossa Seleção.
Começo por dizer que aprecio Paulo Bento enquanto treinador. É um homem de princípios, com boas ideias, que define uma base de jogadores da sua confiança e sabe blindar esse grupo com todas as forças. No currículo leva dois apuramentos para grandes competições internacionais e as meias-finais do Euro’2012.
Paulo Bento pode ser criticado pelas escolhas que fez, mas o fiasco no Mundial deveu-se sobretudo a fatores exógenos ao selecionador, desde o planeamento da prova às decisões da equipa médica. Esta última equipa também pagou a fatura, mas ao nível dos responsáveis federativos ninguém sofreu consequências. Para se perceberem as diferenças, em Itália, depois de um Mundial igualmente mau, o presidente da federação italiana demitiu-se...
Foi notório que o reconhecimento da “incompetência” mostrada no Brasil, proferido por Fernando Gomes, tornou-se num assunto incómodo para Paulo Bento. E foi incómodo porque esta não foi uma declaração de incompetência de todos, mas apenas de alguns. E assim o lugar de Paulo Bento ficou fragilizado. A derrota com a modesta Albânia acabou por precipitar o desfecho de ontem.
É certo que Paulo Bento também cometeu erros. Acredito que tenha as suas razões, mas ao vetar a entrada na Seleção de jogadores como Quaresma, Adrien, Danny, Manuel Fernandes ou Ricardo Carvalho, entre outros, limitou ainda mais em qualidade uma base de recrutamento relativamente curta em determinadas posições.
Como disse acima, os problemas da Seleção Nacional não se resolvem com a troca de selecionador. Vão continuar. E tudo porque a FPF não fez o que lhe competia na preparação e crescimento dos jogadores portugueses. A falta de recursos, diga-se de jogadores, tem mais a ver com o abandono a que são sujeitos os atletas depois do processo de formação, que não dá margem para evoluírem e desenvolverem o potencial que possuem.
A geração de ouro do futebol português derivou do acompanhamento que foi dado aos jogadores que venceram os Mundiais sub-20 de 1989 e 1991. Os atletas destas fornadas acabaram por formar a base da Seleção A na década seguinte, à qual se foram juntando novos jogadores de forma gradual. Hoje isso não acontece. E se os clubes não fazem da formação uma prioridade, cabe à FPF identificar jogadores talentosos e mantê-los debaixo de olho desde os juvenis até aos 23/24 anos.
Temos vice-campeões mundiais de sub-20 que não são aposta. E o mesmo sucedeu com gerações recentes, que não tiveram a oportunidade de crescer. Um exemplo: Márcio Sousa, campeão europeu de sub-17, joga hoje no Tondela. Era a estrela da equipa, um enorme talento, do qual João Moutinho era suplente... Acabou por não evoluir e jogar em divisões inferiores. Quem sabe se, com um maior apoio da FPF, a sua carreira teria sido outra?
As seleções não podem ficar dependentes do trabalho dos clubes. Há que identificar talento, fazer apostas e acompanhar o crescimento dos jogadores nacionais, de modo a que possam atingir o seu potencial e ser uma opção válida. O próximo selecionador terá este desafio: escolher a melhor equipa possível a pensar no presente, sem nunca esquecer o futuro.
O CRAQUE
O ano de Adrien
Sem tempo para se treinarem, as seleções nacionais só têm a ganhar com as rotinas existentes entre jogadores de um mesmo clube. Assim aconteceu na Alemanha (Bayern) e Espanha (Barcelona e Real Madrid), com o êxito conhecido. Adrien Silva pode muito bem ser o parceiro que falta a William Carvalho para dar mais consistência tática e fluidez de jogo ao meio-campo português, replicando os processos de recuperação e construção que fazem no Sporting. Aos 25 anos, Adrien reúne condições para realizar a sua melhor época de sempre. Um lugar na Seleção seria a cereja no topo do bolo.
A JOGADA
Duas lanças em África
Dois jogos, duas vitórias. Melhor estreia seria impossível para Rui Águas à frente da seleção de Cabo Verde, que assim se coloca, desde já, numa boa posição para garantir o apuramento para a próxima edição da Taça das Nações Africanas. Com uma vitória e um empate fora, Jorge Costa também teve um bom arranque com o seu Gabão. Os dois treinadores portugueses são mais um exemplo do bom trabalho que os nossos técnicos fazem lá fora, situação que ajudará certamente a abrir portas em novos mercados.
A DÚVIDA
Os "mind games"
Os “mind games” passaram a ser uma técnica de comunicação utilizada frequentemente no mundo do futebol. Servem essencialmente como uma forma de aliviar a pressão sobre os jogadores, centrando as atenções nos técnicos, e agora dirigentes, que proferem declarações mais ou menos polémicas. Em agosto o alvo de Bruno de Carvalho foi o Benfica, antecedendo um importante Benfica-Sporting. Em setembro parece ser o FC Porto, adversário que os leões vão receber no dia 26. Em vez de conversa fiada, não seria melhor ver um grande jogo de futebol entre duas das melhores equipas portuguesas?
