Os reis da Escócia
Não há competição que sobreviva sem competição. Em Portugal, as diferenças entre os grandes e os outros sempre foram medidas em anos-luz, mas nos últimos anos a tendência agravou-se. FC Porto e Benfica, com o Sporting à beira de reentrar também neste lote, mandam e desmandam no futebol nacional, pelo poderio financeiro que têm em comparação com a restante concorrência. O que sobra de tudo isto é uma Liga disputada a dois (ou três, em anos bons), com a esmagadora maioria das equipas a lutarem por sobreviverem apenas mais um ano.
Aprendemos a olhar para o campeonato escoês com um sorriso condescendente. Desde 1984/85, quando Alex Ferguson ainda estava no Aberdeen, conheceu apenas dois campeões. Celtic ou Rangers, Rangers ou Celtic - numa pescadinha de rabo na boca que só terminou em 2012, quando os protestantes abriram falência e foram para a 4.ª Divisão. Mas em Portugal, nestes 30 anos, só em três ocasiões é que alguém furou a hegemonia de FC Porto e Benfica. E a última vez que isso aconteceu foi em 2002. O que quer dizer que nas últimas 14 temporadas, houve tantos campeões em Portugal como na Escócia. O fenómeno não é um exclusivo nosso, mas as principais ligas da Europa ainda não chegaram a esta ditadura: no mesmo período, Espanha e Inglaterra tiveram 4 campeões, a Alemanha teve 5 e a França teve 6.
O grande problema é que, em Portugal, este desequilíbrio desvirtua toda a competição. Os grandes sugam todos os talentos desde tenra idade e têm capacidade financeira para contratarem quem quiserem aos outros clubes, levando os mais pequenos a aceitar as condições e as sobras que lhes impõem. E, com isso, acontecem casos como os de Miguel Rosa e Deyverson.
A limitação geográfica do campo de recrutamento de jovens talentos até uma determinada idade, como se faz em países como a Alemanha, podia ser uma forma de dar alguns trunfos aos clubes fora dos grandes centros urbanos. Outra medida que poderia servir para equilibrar um pouco a balança seria a limitação de jogadores contratados por cada clube, como se faz noutras modalidades. O problema é que somos portugueses - e haveríamos de arranjar uma forma de contornar a lei com uma chico-espertice qualquer.
