Os túneis do medo

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Os túneis do medo
Os túneis do medo

Por mais que queiram justificar certas atitudes, não é normal que, no final dos jogos, ainda em pleno relvado, treinadores, jogadores e delegados, cada qual a representar uma instituição, se envolvam em cenas nada edificantes.

Não é normal, também, que as funções se confundam e não haja, nesses momentos, quem assuma a decorrência de estar numa posição mais elevada em termos de hierarquização. Refiro-me a todos os túneis e não apenas a alguns. Refiro-me aos túneis do presente e do passado. Refiro-me aos confrontos nas imediações dos túneis ou mesmo dentro das quatro linhas. Refiro-me a todas as cenas de provocação e violência. Refiro-me à falta de respeito entre oficiais do mesmo ofício.

Que os árbitros e seus auxiliares pouco vejam dentro do campo, já não é motivo de surpresa. Agora são quatro, quando não são seis. Ainda assim, não veem nada. Não veem o modismo em que se tornou os jogos acabarem num clima de máxima hostilidade entre adversários, com agressões e empurrões à mistura. Os relatórios não relatam. Os delegados são figuras presentes mas que se tornam invisíveis. Os delegados delegam. Delegam responsabilidades. Que fazem nos campos de futebol? Temos depois as imagens televisivas que, segundo Pinto da Costa, são mais fáceis de controlar do que as imagens captadas pelas câmaras instaladas nos túneis. Importa-se de explicar, se possível sem ironia? É que no meio de tanta falsa moral há palavras que às vezes até fazem sentido. Temos ainda a Liga e a sua atual Comissão Disciplinar que levantam inquéritos e produzem decisões num tempo que até parece calculado ou não abrem inquéritos e não produzem decisões, mesmo que as imagens denunciem comportamentos inaceitáveis.

Os clubes e os seus principais protagonistas já sabem que podem prevaricar, esticar a corda ao limite, porque dificilmente alguma coisa acontecerá. A Liga está enredada na sua falta de autoridade, porque acaba por ser uma emanação ou, se se quiser, uma representação dos clubes com maior poder, porque não foi criada para ser uma autoridade superior à autoridade dos seus filiados, mesmo que estes coloquem em causa os padrões éticos e normativos subjacentes a esta atividade e à competição profissional. Neste clima de impunidade, começa a criar-se a ideia de que a instauração do regime do medo acaba por ajudar, e muito, na fabricação dos campeões. Acha-se aqui uma inquietante similitude com o que se passa atualmente nalguns países do mundo árabe cuja adoração aos seus líderes não era senão a farsa das falsas unanimidades.

A história do futebol português está cheia de opressores e de tiranos, mesmo depois do 25 de Abril. Querem ganhar a qualquer preço, não conseguindo deixar de exibir uma insaciável vontade de tudo quererem controlar, usando as claques ou a inocência de muitos adeptos. A sede controleira alcança os tribunais, os ministérios e a comunicação social. Tudo o que possa condicionar ou produzir decisões. Não espanta por isso que a polícia se queixe de andar a trabalhar para o boneco. Eles batem e incendeiam, nalguns casos são estimulados a isso mesmo, e o sistema de proteção social não funciona. É, pois, uma questão de falta de nível.

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