Palavras, acções e negócios
O futebol português continua a navegar num mar cada vez mais agitado. As polémicas não páram e o descrédito aumenta, à mesma velocidade que o número de espectadores diminui. Quando jogos como U.Leiria-FC Porto e Boavista-Sporting não conseguem arrastar nem 5 mil espectadores aos estádios pode dizer-se que a galinha dos ovos de ouro está a definhar.
O preço dos bilhetes é, indiscutivelmente, uma das causas do afastamento do público que, claro, pode ver os principais jogos em casa, no sofá. Mas não é o único. Se calhar, nem será o principal. É preciso ter em conta que os agentes da modalidade também têm culpas no cartório. Cada vez mais. E não me parece que Hermínio Loureiro vá conseguir dar a volta ao texto lançando uma campanha de sensibilização junto dos famosos. Esses, quando querem ir ao futebol, arranjam sempre convites...
Nos últimos dias registei vários acontecimentos que, de uma forma ou outra, contribuem para que o actual futebol nacional seja cada vez mais uma fonte de material fundamental para os humoristas da nossa praça. A saber:
- Jorge Jesus disse que o "fair play é uma treta". Em teoria, o técnico do Belenenses até tem razão (há por aí muita "esperteza"), mas devia ter mais cuidado em falar assim. Concordo que faz mais sentido serem os árbitros a parar os jogos sempre que considerem existir motivo, mas daí a incentivar os jogadores a prosseguir a partida quando adversários e/ou companheiros pedem assistência vai uma grande distância. Fiquei com a ideia que muitos lances evitáveis só aconteceram devido às palavras de Jesus. Assim, perdeu bela oportunidade de estar calado. E se falhou antes da bola rolar, no final também: atribuiu a Simão a marcação do livre que esteve na origem do golo de Luisão e fez questão de realçar que "os jogadores do Benfica e Sporting se entregaram ao jogo". Convenhamos que não foi brilhante...
- Na véspera, Jesualdo Ferreira - que diz não comentar as arbitragens -, considerou que a sua equipa não ganhou em Leiria porque "não deixaram". Errado. O FC Porto não venceu só por culpa própria: desperdiçou mão cheia de golos de entrada e devido a um acto irreflectido de Quaresma jogou a segunda parte em inferioridade. Foi por isso que perdeu. Ou pelo menos... não ganhou.
- Em Leiria, Domingos também esteve "em alta". Só lhe faltou chorar por a sua equipa ter derrotado o clube do coração. A desorientação era tanta que, para além de ter abandonado o relvado com cara de quem tinha perdido, ainda protagonizou a rábula de não ter visto o lance da expulsão de Quaresma. Mas, mesmo sem ver, considerou ter sido o único erro do árbitro. Interessante!
- Paulo Bento, após o empate do Sporting no Bessa, confirmou as suspeições em relação a Benquerença. "Se calhar, houve alguma ânsia de assinalar algo", afirmou, quando instado a comentar a grande penalidade que esteve na origem do golo boavisteiro, acrescentando que "a bola bate na mão". Não concordo. Não foi a bola que bateu na mão. Se fosse assim não seria falta. O que aconteceu é que o chileno teve "uma branca" e colocou a mão na bola. De resto, se o juiz estivesse ansioso para marcar algo contra os leões poderia ter considerado penálti o lance entre Tello e Linz, logo aos 11'. E não o fez. E quanto a mim... bem!
- No jogo do Bessa também foi notícia a conversa de Benquerença com o auxiliar aquando do penálti. Concordo com o diálogo. Pouco me importa se a decisão é de um ou outro. O que interessa é que a equipa de arbitragem decidiu bem. Só não percebo como é que se pode trocar o Tello pelo Polga na amostragem do amarelo....
- Na Luz, para surpresa geral, o Benfica anunciou a renovação com Manuel Fernandes. Por este andar, findo o empréstimo ao Everton ainda regressa para ser um dos capitães! Perante uma notícia tão inesperada quanto incompreensível só não sei quem teve de "engolir o sapo" maior: se o clube, se o jogador. Quanto às aquisições de Derlei e David Luiz, enalteço o facto de terem sido feitas com base em empréstimos (a menos que sejam iguais ao de Marcel que, depois de não ter feito nada no período experimental, acabou contratado), mas não deixa de ser curioso que esteja na Luz mais um ex-FC Porto e que a opção para terceiro central recaia num brasileiro oriundo dos escalões secundários. Para que servem os jogadores emprestados e as equipas de formação? Provavelmente só para gastar dinheiro e entreter.
- Por fim uma palavra para Carlitos. Sair do Gil Vicente para o Belenenses, sendo natural de Barcelos, já era de mau gosto, mas tendo passado pelo Funchal é... caricato. Entendo o desejo do jogador em alinhar na primeira divisão e de querer ganhar o melhor salário possível, mas isto era escusado.
E assim vai o nosso futebol... rindo e cantando.
