Papagaios encarnados

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O livro de José Veiga (que me faz lembrar outro de alguém que, de repente, passou a ver apenas defeitos onde antes só encontrava virtudes) sobre a sua vivência no Benfica promete. Pelo menos, é essa a ideia com que ficamos ao ter conhecimento das passagens mais “quentes”. Naquilo que já é público, destacam-se as críticas a Luís Filipe Vieira, à forma como o clube está organizado, à gestão desportiva e à postura de vários dirigentes. Em traços gerais, Veiga aponta o dedo a tudo e a todos. Parece o discurso de um futuro candidato a presidente.

Veiga tem toda a legitimidade para escrever livros a falar do que quiser e até acredito que tem razão em determinadas observações. Mas, não deixa de ser curioso ver um ex-defensor da “lei da rolha” na Luz a vir para a praça pública abordar questões que, no passado, lhe eram tão sagradas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Hoje, aliás, até parece que a tão famosa amizade com Luís Filipe Vieira se evaporou. Se calhar, mudam-se os cargos, mudam-se os amigos...

Não sei se José Veiga foi um bom funcionário do Benfica. Pelas amostras do livro, o próprio diz que sim. Aliás, o antigo responsável pelo futebol benfiquista foi sempre apontado – por Vieira, técnicos e jogadores – como um dos grandes responsáveis pela conquista do último título nacional dos encarnados. Porém, isso aconteceu enquanto estava em funções ou quando ainda se equacionava um eventual regresso... Mas, independentemente do desempenho que possa ter tido, Veiga jamais foi visto com bons olhos por muitos benfiquistas. E é normal que assim fosse. Todos temos um passado e o de Veiga não era propriamente o mais recomendável para desempenhar cargos tão importantes no Benfica. Pelos vistos, só o próprio teima em não compreender isso.

Veiga diz, sem rodeios, que Vieira não tem “sensibilidade para o futebol”. É possível que tenha razão, mas o ex-empresário, conforme se percebeu durante a sua permanência na Luz, também deve ter os seus dias menos sensíveis para as coisas do pontapé na bola. Só assim se podem entender algumas contratações que as águias efectuaram sob a sua égide ou, por outro lado, a “birra” que protagonizou devido à aquisição de Diego Souza. Tais deslizes, cometidos por um leigo, até seriam aceitáveis, mas quando rubricados por um “expert” são mais difíceis de entender.

Este livro prova também o que há muito suspeitava: ao contrário do que foi assumido na altura, Veiga saiu da Luz em rota de colisão com Vieira. O presidente, objectivamente, desfez-se em elogios a Veiga, mas nada fez para o reintegrar na estrutura. Não deve ter sido por acaso.

Curioso no meio de toda esta “embrulhada” é recordar-me da expressão de Vieira, há tempos, quando criticava aqueles que, directa ou indirectamente, atacavam Veiga. Os “papagaios” de então devem estar a esfregar as mãos. E, paradoxalmente, não vão tardar a aparecer a fazer a defesa de Vieira. Agora, sem restrições institucionais, o palavreado ainda deve ser mais incisivo, pois há um “papagaio” no exterior mesmo a pedi-las.

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