Pára a mota, miúdo!
"Pára a mota, miúdo!" Muitas vezes ouvi esta frase nos meus primeiros anos de profissional de futebol, em Portugal e Espanha, pelos defesas rivais, especialmente os mais veteranos que, no fundo, tinham razão. Quando estava num dia positivo, endiabrado, era uma dor de cabeça para qualquer defesa e os mais violentos, especialmente em Espanha, com o objetivo de me intimidarem, diziam: "Miúdo, pára a mota senão vou rebentar-te todo!" O que por outras palavras significava que ou eu parava de correr ou acabava no hospital. Eram aquilo a que eu chamava os "assassinos".
Do lado oposto estavam os senhores, que diziam a mesma frase, mas que logo a seguir, simpaticamente, acrescentavam: "Não me faças correr mais!", acabando muitas vezes a brincar comigo. A primeira vez que ouvi aquelas palavras foi no estádio da Amoreira. Tinha 17 anos e começava a dar os meus primeiros passos na equipa principal no Sporting. O Estoril tinha uma equipa muito experiente e, durante uma pausa do jogo, vi que um jogador canarinho se aproximava nas minhas costas, dizendo a famosa frase: "Pára a mota, miúdo!" Olhei para trás e começámos os dois a rir. Aquele defesa do Estoril-Praia era já na altura um ser humano genial. Foi assim que conheci aquele que é, hoje em dia, o nosso selecionador nacional: Fernando Santos.
Quando nos encontramos, falamos sempre e rimos deste episódio. A última vez que nos vimos, disse-me a brincar: "Começa a treinar, porque falta-me um esquerdino que desequilibre e serás já convocado para o próximo jogo." Por segundos, passou-me pela cabeça que já estava a treinar-me com o Cristiano e companhia e a ser orientado por este autêntico craque, que está a fazer uma carreira ímpar.
O único português que treinou os três grandes em Portugal: FC Porto, Sporting e Benfica. Incrível! O primeiro grande desafio de alta responsabilidade foi no FC Porto. A exigência era grande, os dragões eram tetracampeões e todos os adeptos exigiam o penta. Não falhou e ficará eternamente conhecido como o ‘Engenheiro do Penta’. Por outro lado, muito poucos presidentes assumem publicamente que estão arrependidos por mandar o treinador embora. O presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, mostrou o grande líder que é, afirmando que tinha errado ao demitir Fernando Santos. Só um grande treinador pode ser recordado e elogiado desta maneira, muito tempo depois de ter sido demitido.
As únicas aventuras no estrangeiro tiveram lugar na Grécia, divididas em etapas. Depois dos grandes trabalhos que fez no PAOK, AEK e Panathinaikos, chegou à seleção grega com um duro desafio. Desportivamente, a Grécia, depois de vencer o Euro’2004, voltou a ser uma equipa medíocre, num período em que a crise social já se instalava. Para a maioria do povo grego, a única maneira de esquecer, durante algumas horas, aquela horrível situação eram as vitórias da sua seleção. O Fernando Santos conseguiu-o uma vez mais: quartos-de-final no Euro’ 2012 e, em 2014, no Mundial do Brasil, entrou na história ao qualificar pela primeira vez os helénicos para os oitavos-de-final. Por esta razão, não estranho que Fernando Santos seja um mito para a grande maioria dos gregos.
Regressou a Portugal, onde conseguiu concretizar o sonho que todos os técnicos têm: ser selecionador do seu país. Mas as coisas não estavam nada fáceis. O ambiente na Seleção, depois do péssimo Mundial e da primeira derrota na qualificação para o Euro de França, contra a Albânia, não era o melhor. Com o deslize de Aveiro, a grande maioria dos portugueses pensou que esta geração maravilhosa tinha chegado ao fim. Era um momento complicado e só um grande campeão com a experiência do Fernando podia inverter a situação.
Conseguiu-o e de que maneira! Na quinta-feira, após a vitória, por 1-0, frente à Dinamarca, não só conquistou a sexta vitória seguida em jogos oficiais, como também qualificou Portugal com o 1.º lugar do grupo, evitando a pressão da última jornada. Excelente! E também conseguiu que os portugueses passassem a sonhar que podemos fazer algo grande no Euro 2016 em França. Muitos parabéns míster e que a ‘mota’ só pare depois do Europeu!
- Caldeirada da semana
Romário tinha razão
Há duas semanas, destaquei as declarações de Romário, em que dizia que Blatter e Platini faziam parte da mesma escola de malfeitores. Com o sr. Blatter tinha toda a razão, mas na altura, desejei que o ex-craque não tivesse certo em relação a Platini. O francês foi um dos melhores jogadores de sempre e, pessoalmente, seria uma grande deceção ver o Michel envolvido em casos de corrupção. Infelizmente, parece que o Romário acertou mais uma vez. Ambos foram suspensos esta semana, provisoriamente, por suspeitas de corrupção, confirmando assim as palavras do brasileiro.
- Nós lá fora
Paulo Sousa
O Paulo Sousa segue em grande na Serie A, ao serviço da Fiorentina. Depois da vitória fantástica no estádio do Inter Milão, por 4-1, ganhou a semana passada à Atalanta, por 3-0, conseguindo manter o primeiro lugar , com dois pontos de avanço do segundo. Um início fantástico do treinador português, que, sem dúvida, promete fazer história no campeonato italiano esta época. Se assim for, Florença amará ainda mais Portugal. Depois do Rui Costa, que para eles foi, é e sempre será o rei, poderá agora o Paulo tornar-se num imperador, caso conquiste o scudetto. Muitos parabéns, amigo!
- Álbum de recordações
O meu querido Milan
Antes de começar o campeonato, tinha uma pequena esperança que, este ano, o Milan pudesse lutar pelo título. Tenho imenso carinho por este clube gigante, onde tive o grande privilégio de vestir a sua camisola. Quero sempre que ganhe. Depois da péssima época que fizeram o ano passado, tudo indicava que os rossoneri voltariam a ser uma equipa ganhadora, mas, surpreendentemente, estamos em outubro e o pesadelo continua. Neste momento, estão no 11.º lugar da Serie A com 9 pontos de atraso para a Fiorentina, que segue no topo da classificação, e já se fala em troca de treinador. O grande Milan continua doente.
