Para que serve um treinador

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1. A palavra é uma das armas mais poderosas de qualquer treinador e tanto pode constituir o ponto de partida para a criação de um estilo como servir para ganhar, pela via demagógica, a cumplicidade dos adeptos; o discurso pode agradar ao público mas criar distâncias irreparáveis com os jogadores; pode defender, à primeira vista, interesses institucionais mas, na maioria dos casos, é só um sinal de quem vive condicionado pelo medo. O disco riscado de treinadores em dificuldades, e são quase todos, passa por frases como "comer a relva", "deixar a pele em campo" e às habituais alusões a ordem (toda), disciplina (muita) e trabalho (que soa perfeito dito três vezes seguidas). Mas poucos se atrevem a defender liberdade, sonho, magia, conceitos à volta dos quais a suspeita é cada vez maior.

2. Afastada liminarmente, por mera sensibilidade pessoal, a medida de aferição comum de que o melhor é aquele que vence mais vezes - espero não criar constrangimentos se disser que a história do futebol e do Mundo está repleta de incompetentes bem sucedidos -, a avaliação de um treinador, seu trabalho, qualidade e convicções, pode seguir várias pistas. Cruijff, por exemplo, analisa os companheiros de profissão com independência dos resultados: "Só há duas espécies de treinadores: os que treinam e os que ensinam." Menotti completa a ideia com o brilhantismo habitual: "Um treinador vê-se nos progressos dos seus jogadores. Se um futebolista tem sempre as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, é porque não tem um bom técnico."

3. Hugo Viana, referenciado desde os 16 anos como o melhor médio europeu da sua geração, constitui exemplo corrosivo para o prestígio de quem lhe deu as boas-vindas ao futebol sénior: Laszlo Bölöni, corajoso a lançá-lo mas um desastre na gestão pedagógica, e Bobby Robson, que teve perspicácia e dinheiro para o contratar mas, em vez de lapidar a jóia, está a danificá-la escandalosamente. Com um preço de mercado a rondar os 14 milhões de euros, Viana chegou a Newcastle enquadrado por um diagnóstico preciso sobre as características e pelo prognóstico seguro quanto à sua evolução: médio-centro brilhante na concepção táctica; dono de uma riqueza excepcional de soluções técnicas, capaz de detectar linhas de passe milagrosas; esmagador no peso relativo sobre a manobra colectiva e com uma evolução física para fazer sem pressas.

4. O primeiro pecado de Robson foi desrespeitar a natureza do jogador - quis um maestro e utiliza-o como violinista; o segundo é a forma indigna como o afastou da equipa e o envolveu no discurso demagógico de que é jovem, tem tempo e todos ganham com a moderação - a farsa só não vai mais longe porque não pode beliscar a nobreza do carácter nem equacionar a seriedade profissional. Hugo Viana é um jogador que ou se afirma em continuidade, assumindo responsabilidade pela condução do barco, ou se afunda na revolta dos miseráveis cinco minutos por jogo que o matam aos poucos. Cristiano Ronaldo, um rebelde problemático, cuja imposição imediata se apresentava duvidosa, teve mais sorte: foi parar às mãos do mestre que há-de transformá-lo, em dois/três anos, num dos mais extraordinários jogadores do Mundo. Estão a ver para que servem os treinadores?

Passe curto

A EXPRESSÃO DE BARBOSA - O capitão sportinguista confirmou na Luz a época espantosa que está a efectuar. É o que dá cruzar-se com um treinador inteligente, que sabe medir a total expressão do seu talento e encontrar a melhor forma de o orientar. E essa é fazê-lo jogar com regularidade, que é a parte do treino mais importante num jogador com a sua fisionomia.

O MELHOR DO MUNDO - Zé Manuel selou a vitória em Belém, onde o Paços se mostrou pronto para a luta. José Mota é o melhor treinador do Mundo para o Paços de Ferreira e todos o acompanham no sonho. Pode ser que me engane, mas eles vão conseguir salvar-se.

UM DIA ELE PEDE DESCULPA - Rui Costa encheu o campo em Roma, com o número 10 nas costas, ao lado de Kaká e das outras estrelas da companhia - esperança para quem julga ser sempre possível compatibilizar os melhores. Ancelotti tem gerido a relação com o português promovendo o conflito, mas Rui Costa só se sente confortável em clima de confiança. Cá para mim, um dia destes ele ainda pede desculpa por ser um génio.

SILÊNCIO, MEUS MENINOS - Inqualificável a atitude da SAD leiriense em relação a Bilro, Paulo Duarte e João Manuel. Destituí-los de capitães por divergência de opinião só faz sentido vindo de capatazes que não fazem a menor ideia do que é o futebol.

Jornalistas, 1 - Treinadores, 0

No dia em que mostrou a "Bola de Ouro" aos seus adeptos, no Delle Alpi, Pavel Nedved marcou um golo espectacular que deu a vitória da Juventus sobre o Perugia (1-0). O melhor da Europa em 2003 para os jornalistas não teve sequer direito a discutir um dos três primeiros lugares na lista definida pelos seleccionadores nacionais dos países filiados na FIFA. Nem sempre os duelos entre as duas classes acabam assim, mas desta vez o resultado não oferece dúvidas: jornalistas, 1 - treinadores, 0.

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