Pereira esmagado na hipótese Jesus
Não restam agora dúvidas de que Pinto da Costa tentou tudo para contratar Jorge Jesus e tirá-lo do Benfica e não restam agora dúvidas de que Jorge Jesus acabou por ser sensível e grato perante a abordagem e os argumentos de Luís Filipe Vieira, que se atrasou na gestão do processo, acabando no entanto por dominá-lo de acordo com as suas convicções e num momento em que crescia a contestação (interna e também externa) em redor do cenário de continuidade do treinador dos encarnados.
Parece óbvio que Pinto da Costa acreditou até ao limite que poderia ter Jorge Jesus no FC Porto e só avançou para a solução final (Paulo Fonseca) depois de ficar claro que já não era possível convencer JJ a deixar o Benfica. Pelo meio, um Vítor Pereira desconsiderado e traído (bem tratado, publicamente...), que a “estrutura” deixou cair quando já ninguém no Dragão acreditava na possibilidade do volte-face no campeonato e que Pinto da Costa tentou reabilitar – sem muita convicção... – depois de consumado o volte-face, com os contributos do FC Porto e do Benfica, mas também, de forma mais particular, com a assinatura do Estoril, de Carlos Martins (no jogo com os canarinhos), de Kelvin, de Liedson (no tira-teimas FC Porto-Benfica) e, também, de Hugo Miguel (que não quis ficar atrás de... João Capela!), em Paços de Ferreira.
Caíram Leonardo Jardim (o primeiro a cair!) e Mano Menezes, Domingos nunca foi uma hipótese muito séria e Jorge Jesus só caiu por vontade própria (consciente da importância que Vieira teve no reforço da sua cotação como treinador e no reforço da... conta bancária!). Caiu também Vítor Pereira, confrontado com uma proposta pífia, potencialmente recusável, que ganhou títulos no FC Porto mas não ganhou dinheiro e foi atropelado com o desfile de inúmeros candidatos ao seu lugar, sinalizados pela “estrutura”, a partir do momento em que... caiu na Champions (não de joelhos), aos pés do Málaga.
Avança Paulo Fonseca. Tinha a seu favor a excelente época realizada ao serviço do Paços de Ferreira (melhor do que Marco Silva, no Estoril), mas na recta final acabou por ganhar – precisamente a Marco Silva... – porque Pinto da Costa sempre valorizou muito os detalhes... A “resposta” do Estoril na Luz foi um grande detalhe, mas o abraço de Paulo Fonseca a Vítor Pereira em Paços de Ferreira, instantes antes do fim do jogo e já com os azuis e brancos em festa e o ambiente simpático na Capital do Móvel foram grandíssimos detalhes...
O FC Porto (de Pinto da Costa) continua a impor a sua lei. E a lei é – tirando casos verdadeiramente excepcionais, todos explicáveis – ... fazer do treinador uma peça apenas relativamente importante da “estrutura”. E é também por isso que Pinto da Costa continua a ser idolatrado (pelos adeptos activos do FC Porto), acima de treinadores e jogadores...
Nunca é bom, em tese, que um treinador entre num clube com respeito maior pelo estatuto dos jogadores do que os jogadores com respeito menor pelo estatuto do treinador. O FC Porto, contudo, tem promovido, neste domínio, a antítese... Não interessa muito se Paulo Fonseca tem ou não o perfil certo; o que interessa é se tem perfil para se encaixar na “estrutura”. E isso, pelos sinais, parece ter...
TEMPO EXTRA
De joelhos, não!
Não tenhamos dúvidas: nunca houve, no futebol português, por deformação dos dirigentes desportivos, capacidade para diferenciar os interesses globais da “indústria futebol português” dos interesses clubísticos. O ambiente de pequena e grande intriga sempre dominou o argumentário do dirigismo nacional, a partir do momento em que Pinto da Costa escolheu o caminho de atacar o centralismo dos clubes de Lisboa. Por isso, as reformas estruturantes são tão difíceis, porque os presidentes se colocam acima da fraca capacidade de liderança da FPF e da Liga, asfixiando-as. Com mais ou menores correcções nos regimes jurídicos das federações, os presidentes dos clubes dominantes jogam sempre com a capacidade de mobilizar as massas para inviabilizar algumas medidas de interesse geral... É de elementar compreensão que o corte de relações institucionais promovido pelo Sporting em relação ao FC Porto não resulta de uma querela entre Bruno de Carvalho e Adelino Caldeira; representa um novo posicionamento do clube de Alvalade.
E também um risco...
JARDIM DAS ESTRELAS
Pablo Aimar para sempre
Há jogadores que, pelo seu carisma e qualidade, ficaram para sempre na nossa memória colectiva. Entre os estrangeiros, Aimar é um deles. Dos jogadores que passaram por Portugal nos últimos anos foi, talvez, o que mais me marcou. Há jogadores de indiscutível categoria mas que não entram na galeria dos notáveis... por falta de classe. Aimar faz a diferença pela classe extra que empresta ao seu futebol. Deixa saudades.
O CACTO
Dossiê Mourinho
Foi com mérito e através da sua qualidade profissional que Mourinho se tornou independente, o que lhe permite ter um discurso quase sempre fraturante e, às vezes, cruel. Mourinho mexeu com muita coisa e ameaçou o monumento das “vacas sagradas”. O processo que protagonizou em Madrid foi de uma violência (psicológica) inaudita, até para si próprio... Precisava de se libertar de um mundo no qual só acumulou tensões e conflitos e daí ter-se apresentado, outra vez, no Chelsea... com cara (e língua) de bebé... Bem precisa de se reabilitar e, para isso, necessita de reavaliar o código de conduta com os jogadores, de quem todos os técnicos dependem... É que, apesar de se sentir injustiçado (os jogadores não são fiáveis e também têm grandes umbigos e fraca memória...), não é bom sinal a ruptura com Ronaldo. Um dossiê que pode abrir uma nova era...
