Pinto da Costa não tem vergonha?
Há pessoas que deviam estar proibidas de falar da arbitragem, e Pinto da Costa é uma delas. O presidente do FC Porto é o principal responsável por se falar mais de arbitragem do que de futebol em Portugal. O Apito Dourado não foi nem uma construção jornalística nem um devaneio anti-Porto. Foi uma realidade assente, no mínimo, por um magistério de influência sustentado por uma estratégia muito bem delineada pelo FC Porto “de Pinto da Costa”, que começou em Pedroto, passou pela AF Porto, teve extensões de carácter político e “acabou” no poder de persuasão do presidente portista.
É verdade que, esta época, o FC Porto não tem tido os favores da arbitragem. Ou, se se quiser, em linguagem mais pueril, não tem beneficiado dos erros de arbitragem. Mas, independentemente dos méritos associados à capacidade de resposta do FC Porto em construir plantéis competitivos na década de 90, ao mesmo tempo que o Benfica se afundava em contradições, Pinto da Costa e os seus sequazes tiraram muito partido do controlo conseguido sobre a arbitragem. Foram anos e anos, nas Antas, sem penáltis ou expulsões. Foram anos e anos em que a arbitragem se curvou perante a ameaça, a chantagem e o medo. Independentemente, repito, dos méritos achados nas equipas do FC Porto, os verdadeiros “exércitos” de mobilização portista e de adesão a uma estratégia de confronto.
O FC Porto foi beneficiado em Penafiel, mas não tanto como certas vozes apregoam. Entre os três golos apontados como irregulares, descortinei um que foi indiscutivelmente irregular. Os outros podem ter sido ou não, mas a televisão não nos dá imagens suficientemente claras para se poder formar uma opinião segura. Não alimento facções nem clientelas. Foi assim que vi e aquilo que vejo há-de sempre estar acima de qualquer interesse particular. Sem nenhuma reserva ou juízo de valor antecipado.
Em Braga, tivemos acima de tudo uma má arbitragem de Cosme Machado, que estragou o jogo.
Não é comum, ou melhor, não tem sido vulgar a existência de jogos com expulsões de jogadores do FC Porto. No encontro de Braga houve duas. Raríssimo ou inédito. Adianto desde já que, entre as quatro decisões mais arriscadas de Cosme Machado, o árbitro errou em três e o critério disciplinar foi muito – mas mesmo muito – discutível.
OFC Porto, esta época, tem sido mais prejudicado (Penafiel e Braga foram excepções), mas o que está aqui em causa é uma mudança de paradigma: o FC Porto, em caso de dúvida, vinha beneficiando de um critério excepcional de protecção, nas provas nacionais, e isso tem vindo a mudar, lentamente, com… Fernando Gomes na liderança da FPF.
Há sinais recentes de revolta e inconformismo por parte da “estrutura”, ex-superestrutura, portista. É bom não esquecer que, em razão de um certo aburguesamento (conquista de títulos quase sem oposição) e da convicção de que a “máquina”, só por si, em regime de piloto automático, chegava para as encomendas e para a fraca concorrência, a anteriormente tão elogiada “organização-Porto” começou a cometer demasiados erros e isso resultou numa época (2013/14) absolutamente atípica, a pior de todas (sem troféus conquistados) desde que Pinto da Costa subiu à presidência.
Sou a favor da ideia de que não se deve falar tanto de arbitragem, como acontece em Portugal. Acontece, porém, que o futebol português está longe de um estádio de regulação razoável e a arbitragem e o seu condicionamento dominaram a bola indígena durante anos a fio. O futebol português ainda não fez, totalmente, a digestão do Apito Dourado e dos seus Calabotes. A geração de Proença e as anteriores sabem do que estou a falar. O futebol português e a arbitragem só podem começar a fazer o seu caminho, sem amarras e desprovidos de comportamentos menos éticos, quando alguns dirigentes saírem de cena. Para esses, não há regeneração possível. Não vale a pena alimentar falsas esperanças. Foi demasiado escabroso o caminho para se achar que, de repente, tudo é um mar de rosas.
Aliás, o problema não está no FC Porto, no Benfica ou no Sporting. O problema está no sistema de organização da arbitragem que, ele próprio, recusa regenerar-se. A FIFA, a UEFA e o International Board (IB) revelam pouco interesse em olhar para a Arbitragem como um “braço” fundamental do futebol-indústria. A indústria só será credível quando os consumidores acharem credível a arbitragem. Enquanto isso não acontecer, ou por mobilização das Federações e das Ligas, ou por influência da FIFA, da UEFA e do IB, o território da arbitragem e o da sua alegada “independência” serão sempre disputados pelos clubes, nas suas zonas de influência.
Quer dizer: muito mal vai o futebol português quando se achar que a troca de maior influência, do FC Porto para o Benfica – e não chamo à colação o Sporting, porque não tem influência nenhuma –, resolve o problema. Enquanto se pensar assim, não vamos a lado nenhum.
NOTA – As nomeações desta jornada (Capela no Marítimo-FC Porto e Paixão no Paços-Benfica) dizem muito da natureza das “alterações sistémicas”…
JARDIM DAS ESTRELAS
As lágrimas de Helton
A exibição de Helton em Braga, depois de um ano sem competir, ficará na memória colectiva como umas das melhores de sempre. O FC Porto “uniu-se” para segurar o empate e há muito que não víamos , dentro do campo, uma manifestação de tanta solidariedade, “à Porto”. Sem um guarda-redes superinspirado não teria sido possível evitar a derrota. No final, a emoção de Helton compreende-se. Já lhe haviam sentenciado o fim da carreira. Helton não representa o futuro, mas ainda pode ser muito útil ao FC Porto. Helton é, de resto, um guarda-redes de bons valores.
O CACTO
Orgulho?
Deu jeito à estrutura do FCP o “esquecimento” (centenário) da FPF e de Fernando Gomes em relação a Pedroto e Pinto da Costa. Como dá jeito, neste momento, o desfavorecimento das arbitragens, nesta Liga em geral e, em Braga, na Taça da Liga. As queixas agora desencadeadas servem para amenizar o efeito ainda pouco visível do grande investimento realizado esta época no plantel portista, com Lopetegui e C.ª. Se não houver retorno desportivo, o FCP pode entrar num ciclo complicado. As excessivas manifestações de repúdio de Antero Henrique, ao intervalo do jogo de Braga, são um sinal. O discurso a uma voz (orgulho, orgulho, orgulho…) é o toque a reunir. O FCP precisa dessa “seiva” para se alimentar.
