Ponta-de-lança e muito mais

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1. Vive em pleno campo de batalha mas não tem perfil de guerreiro; é um alvo apetecível naquelas zonas militarizadas em que se movimenta mas recusa, sistematicamente, o papel de vítima; no reino da urgência e do despudor, de faíscas e grosserias autorizadas em nome do futebol moderno, Nuno Gomes oferece o luxo da serenidade, das boas maneiras e da eficácia. Quando participa nos assaltos aos redutos adversários, não altera conceitos estéticos e mantém fidelidade aos princípios da ética desportiva. Alimenta a imagem de predador disperso e inofensivo – procura mesmo desviar atenções, esconder-se e escapar ao protagonismo desses filmes de acção violenta. De repente, sai de cena e só regressa no fim para apresentar condolências à família das vítimas. Que ninguém o leve a sério: nunca está inocente.

2. Nuno Gomes é um avançado generoso com a equipa e nada cuidadoso com a contabilidade pessoal; não suporta a solidão e desespera de tédio quando o deixam prisioneiro de defesas sem escrúpulos; recusa o egoísmo, gosta de ajudar e resiste à tresloucada obsessão pelo golo que orienta a vida de outros parceiros do mesmo ofício. Porque espaço e tempo junto à área são cada vez mais raros, serve-se da inteligência para intimidar; porque o objectivo é dar segurança à progressão colectiva, recua, evita correrias com a bola e joga a um/dois toques; porque tem intuição apurada e velocidade para se aproximar da baliza, é um perigo constante na zona de finalização. Aí, onde as pulsações aumentam para quase todos, modera a ansiedade, não perde discernimento e decide sempre o melhor para as suas tropas.

3. A caminho dos 150 golos em provas oficiais como sénior, Nuno Gomes é, aos 27 anos, muito mais que um ponta-de-lança. É um jogador de corpo inteiro, solidário, corajoso, comprometido com o meio em que está inserido, que vai deixando pelo campo constantes mensagens de ambição e orgulho. Sem danificar a agilidade, acrescentou centímetros à largura de ombros e peso à massa muscular, aproximando-se dos parâmetros físicos ideais para o desempenho de uma função que também exige resistência ao choque. Mas nunca perdeu (e jamais perderá) o prazer de participar na cerimónia que antecede o golo, aquela que, pelo caminho, lhe desperta o instinto de colocar a assinatura no último toque.

4. É este avançado com ideias claras e processos limpos; que solta a bola com critério em acções de apoio (de frente ou de costas para a baliza) e remata bem com os dois pés (de curta e média distância), que regressa agora aos relvados após cinco meses de martírio. Pelo modo como dá enquadramento às insinuações dos extremos (Geovanni e Simão); pelo altruísmo com que assume a missão de criar linhas de passe a quem se movimenta à sua volta (Zahovic ou Sokota); pela visão que lhe permite abrir alas aos médios com poder de chegada à área (Tiago mais perigoso que Petit), Nuno Gomes é o denominador comum do processo criativo do Benfica. Um ponta-de-lança com amplitude funcional, que não precisa de golos para ser brilhante mas não pode abdicar deles para viver em paz. E é disso que precisa para recuperar o terreno perdido. Incluindo o atraso com que parte no despique com Pauleta e Hélder Postiga por um lugar no Euro-2004.

O sorteio não terá sido perfeito de mais?

Se me perguntassem qual seria o critério para o “play-off” que dá acesso ao Euro-2004, faria assim: Turquia (terceira no último Mundial), Espanha (não se esqueçam , entre outros motivos, que a prova é em Portugal), Holanda (sempre uma esperança de grande futebol), Croácia e Rússia não se defrontariam. Ficavam todos de um lado à espera de Eslovénia, Noruega, Escócia, Letónia e País de Gales. A propósito: não acham que, para sorteio, foi perfeito de mais?

Passe Curto

Conceitos e nomes

Até à zona de risco, o futebol suporta-se em conceitos genéricos (ordem, segurança, rotina, disciplina...) – e só depois é feito de nomes próprios. A Selecção tem sido Figo, Rui Costa, Pauleta, Costinha, Boa Morte, etc., mesmo onde devia ser outra coisa. Os adeptos protestam? Admiração era se aplaudissem.

Será convicção?

Scolari continua a não convocar Vítor Baía. Se for embirração, pronto, é feio, mas manda quem pode; se for convicção é ainda mais grave, porque levanta uma dúvida incómoda: será que Felipão vê mesmo os jogos do FC Porto?

A arma e o guarda-redes

Scolari afirmou que a meia distância é uma arma a ter em conta. Certo. Convinha só acrescentar que é preciso rematar melhor. Não se esqueçam, rapazes, que daqui por diante terão guarda-redes a sério pela frente.

O sorriso do Rui

Durante sete anos, Rui Costa fez a ligação entre um craque debaixo dos postes (Toldo) e o fenómeno que vivia do lado oposto do campo (Batistuta). Ganhou pouco mas foi feliz, amado e reconhecido. O destino deu-lhe o Milan, a Liga dos Campeões e um lugar entre os deuses. Fez-se justiça. Mas era mesmo necessário roubar-lhe o sorriso?

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