Por que ajudamos a morte?
Não conhecia Kevin Widemond. Não o vi jogar uma única vez. E já não terei possibilidades de o fazer. O basquetebolista norte-americano - que há pouco mais de 1 mês assinou pela Ovarense - morreu, em Leiria, durante o intervalo do embate da formação vareira com a Académica, referente à disputa dos terceiro e quarto lugares do Troféu António Pratas.
Por ser alguém que, desta ou daquela forma, há muito se encontra ligado ao basquetebol sei como a maioria dos agentes da modalidade ficam afectados com este tipo de tragédias. A morte, por si só, seria suficiente para deixar toda a família da modalidade em estado de choque. Mas, quando um jovem de 23 anos cai inanimado no meio de um jogo, a brutalidade da notícia choca ainda mais. Morrer é uma inevitabilidade da nossa existência, mas se tal sucede com alguém longe da esperança média de vida, quando não está a fazer nada que possa potenciar a ocorrência de uma fatalidade... ninguém se conforma.
A forma abrupta como Paulo Pinto, há quase uma década, desapareceu, mexeu com todo o basquetebol nacional. O Paulo, mais do que um jogador excepcional (dos melhores de sempre no País), mais do que ser o capitão da Selecção Nacional, era uma pessoa acima da média: um senhor dentro e fora do campo. Sem registo de complicações de saúde. E também ele, de repente, caiu para o lado e morreu. No meio de um jogo... A partir daí, o mundo do basquetebol lusitano passou a olhar com outros olhos para esta questão.
Conheço as opiniões, os lamentos e os receios dos basquetebolistas. Melhor: sei o que sentem. E esse sentimento, para além da revolta, passa por uma terrível sensação: se já aconteceu a A ou B, amanhã pode suceder a qualquer um dos outros que, no desempenho da sua profissão (que para outros é apenas uma paixão), todas as semanas entram em campo.
Ninguém, a começar pelos médicos, sabe explicar a maioria destas mortes súbitas. Existem teorias, rumores e hipóteses, mas poucas ou nenhumas certezas. E, efectivamente, para se morrer basta estar vivo no segundo anterior. No meio de um jogo de basquetebol, uma queda traiçoeira pode ser suficiente para alimentar a tragédia. Mas não há registos de mortes nos campos de basquetebol por causa disso. A repentina paragem cardío-respiratória é que teima em ceifar vidas tão jovens.
E é aí que temos, quanto antes, de modificar algumas coisas. Eu não sei - nem quero saber - o que se passa em Espanha, nos Estados Unidos ou em qualquer outra nação que gostamos de copiar em tudo e mais alguma coisa. Sei é que em Portugal, de uma vez por todas, devia ser OBRIGATÓRIO que todos os pavilhões e estádios onde se pratica desporto possuissem um desfibrilador!
É evidente que ninguém pode pensar que por existir o tal aparelho vão acabar as mortes no desporto. O que todos sabemos é que, com essa opção, talvez seja possível salvar um ou outro. E só por isso vale a pena o esforço, ser previdente. Se todos os pavilhões possuem extintores (o que me parece correcto), mesmo não sendo vulgar ocorreram incêndios nesses espaços, porque raio ninguém legisla no sentido de os equipar com algo que, segundo os especialistas, pode marcar a diferença entre a vida e a morte?
Tenho a certeza que o País não tem condições para colocar uma ambulância em todos os recintos desportivos, mas com o desfibrilador é diferente. Tem de ser diferente. E pouco me importa se a despesa com os equipamentos será paga pelos clubes, pelas câmaras municiais, pelo Ministério da Saúde, pela secretaria de estado do Desporto, pelas federações ou por todos. A vida não tem preço e obriga a atitudes céleres. Assobiando para o ar, até que o tema deixe de ser notícia, continuaremos apenas a ajudar a morte a fazer o seu trabalho.
