Porque sofrem as favoritas neste Mundial
Nestes primeiros jogos do Mundial, tem-se visto algo muito evidente: as seleções menos cotadas apresentam-se extremamente unidas, compactas e com um espírito competitivo impressionante. São equipas muito organizadas, que defendem juntas, fecham os espaços entre linhas e dificultam enormemente a vida às seleções mais fortes.
Por outro lado, as equipas candidatas ao título têm encontrado dificuldades em desmontar estas estruturas defensivas. E uma das principais razões parece estar na escassez de jogadores verdadeiramente criativos, daqueles que conseguem resolver problemas com talento individual.
O futebol moderno evoluiu muito do ponto de vista coletivo. Hoje trabalha-se ao detalhe a organização defensiva, a organização ofensiva, as transições e as dinâmicas de equipa. No entanto, em muitos casos, perdeu-se algo que sempre foi decisivo: o jogador capaz de desequilibrar no um contra um, de assumir riscos e de criar algo onde aparentemente não há espaço.
Quando as defesas estão bem montadas e as muralhas parecem intransponíveis, é esse jogador que consegue desorganizar todo o sistema adversário. E é precisamente esse perfil que parece estar cada vez mais raro neste Mundial.
Existem algumas exceções. A Costa do Marfim, por exemplo, possui extremos rápidos e muito fortes no um contra um, como Diomande. O Brasil continua a contar com a capacidade de desequilíbrio de Vinícius Júnior, enquanto Portugal também mostrou uma mudança de dinâmica quando lançou jogadores com maior capacidade para criar situações individuais e acelerar o jogo, como Francisco Conceição.
Um dos melhores exemplos desta realidade aconteceu no jogo entre Espanha e Cabo Verde. Durante grande parte da partida, Cabo Verde conseguiu fechar os caminhos para a baliza espanhola, reduzir os espaços e controlar as zonas mais perigosas do terreno. A sua organização coletiva neutralizava grande parte das soluções ofensivas da Espanha.
No entanto, tudo mudou com a entrada de Lamine Yamal. O jogo ganhou outra velocidade, outra imprevisibilidade e outra capacidade de criar desequilíbrios. A sua qualidade no um contra um começou a criar problemas que até então não existiam para a defesa cabo-verdiana. Foi um exemplo perfeito de como um único jogador pode alterar a dinâmica de um encontro.
A estrutura coletiva de Cabo Verde conseguiu controlar a Espanha durante longos períodos, mas teve muito mais dificuldades em controlar o talento individual e a criatividade de um jogador capaz de sair dos padrões habituais do jogo. Na minha opinião, se Lamine Yamal tivesse entrado mais cedo, a Espanha teria aumentado significativamente as probabilidades de chegar ao golo, porque perante blocos baixos e equipas muito organizadas, muitas vezes é a qualidade individual que encontra soluções onde o jogo coletivo deixa de as encontrar.
No geral, muitas seleções apresentam hoje uma qualidade coletiva muito elevada, fruto da evolução tática do futebol moderno. Mas também é evidente a falta de jogadores capazes de decidir com talento individual. Perante adversários cada vez mais organizados e competitivos, essa capacidade de desequilíbrio pode voltar a ser um dos fatores mais decisivos deste Campeonato do Mundo.
