O meu clube, por Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro
Fernando Ribeiro Vocalista dos ‘Moonspell’ e adepto do FC Porto

Porto 2.0

Aproxima-se o final da primeira parte. Precavido, ponho o futuro a fazer exercícios de aquecimento. Chega o intervalo, descemos ao balneário. Os minutos passam tão longos que se transformam como em meses, sem darmos conta. Estamos ali, a equipa toda, isolados socialmente. Chamo o futuro à parte e digo-lhe: "Está na hora de entrares. Tens de ir para o campo e fazer a diferença. Isto está parado. O adversário adormeceu-nos. Entra com cautela, vais ainda um bocado a frio e a medo, tudo OK. Vê lá não te aleijes logo, mas aproveita todas as oportunidades para pressionar a bola."

O futuro pergunta-me: "Míster, como é que é isto de ser do Porto? O que é que tenho de fazer?" Eu respondo-lhe: "Futebol é história." E, enquanto ele alonga, conto-lhe a minha. Isto de ser do Porto lembra-me dois momentos:

O primeiro, na Brandoa, onde cresci, nos gloriosos anos 80. O Porto tinha ganho qualquer coisa, acho que um campeonato. Eu tinha um equipamento pequenito e vesti-o para sair à rua. No meu prédio, era quase tudo do Sporting. Esta preferência reverberava pela minha rua fora: um pequeno bastião de Juventude Leonina, onde irmãos mais novos imitavam os mais velhos e se juntavam aos leões. Saí porta fora do prédio, a correr como se entrasse no estádio para jogar. Vi uma bola, muito velha, no passeio e nem pensei duas vezes: puxei o pé atrás e dei-lhe de bico, agigantado pelos gritos dos outros putos (os do Sporting), "Vai Porto, dá-lhe!"

Quando o meu pé toca na bola, uma dor que ainda doeu mais cá dentro. A bola estava cheia de pedras e eu acertara-lhe em cheio. Engoli as lágrimas, escondendo o rubor das faces. Dei a minha volta pela rua, encurtando-a ao máximo. Só chorei quando cheguei a casa.

O segundo é no Dragão Caixa, a 28 de setembro de 2013, onde sou convidado para as celebrações dos 120 anos do FC Porto. Logo pela manhã canto o hino do FC Porto: "Ó meu Porto, onde a eterna mocidade..." Hasteiam-se bandeiras. Depois, à noite, repito a cantoria, mas com versões dos Beatles e dos Rolling Stones. Grito e bafejo palco afora como um dragão. Algumas pessoas gostam, outras assustam-se. Na fila da frente o presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa e D. Januário Torgal, que, com certeza, se pudesse, me teria mandado benzer. A única coisa vermelha que desponta na sala é o cabelo da minha mulher (Sónia Tavares, que, na altura, gravava a primeira série do talent show ‘Factor X’). O meu maior triunfo nessa noite: ter feito o Herman José rir, quando, no fim, foram lançadas bolas de futebol para a plateia e eu, no meu desjeito de albatroz, consegui arremessar uma direitinha à cabeça de uma convidada VIP, desmanchando-lhe o topete.

"Pois é, futuro. Às vezes temos de dar uns pontapés nas pedras para ganharmos o respeito dos outros. Passados dois anos, quando o Porto em 1987 ganhou ao Bayern Munique na final do que agora chamam Liga dos Campeões, fui para a escola, todo vestido à Porto. Nenhuma pedra no caminho. A beleza daquela final tinha triturado até as rochas, depois, quando o clube fez anos, apesar dos meus gritos e desacertos, estive uma semana a respirar Porto. A ver como se organiza, como funciona, como expande, como se agiganta." Acabado o recesso, subimos para o campo e entrámos em jogo. Não estava ninguém a ver. Os jogadores olharam para mim e eu disse: "Eles só vêm depois. Agora é a vossa vez de manter o jogo vivo, até que as portas se abram outra vez. Até que as bancadas tremam e rujam outra vez." E eles lá foram. Jogar para ganhar.

O que quero do meu FC Porto, quando regressar à competição nesta fase, é aquilo que fez com que um miúdo dos subúrbios desse um pontapé nas pedras, mas esperasse para só chorar depois, quando os outros não vissem. Um acreditar que "não faz mal" que um vírus nos pregue esta maldita partida, porque sabemos que, mais cedo ou mais tarde, estaremos a abraçar os colegas sem medo que algum deles nos passe algo mais que a bola redondinha para metermos na baliza. Quero a paciência dos grandes, essa mesma virtude que o FC Porto usou durante largos anos, e que lhe permitiu evoluir de um clube regional, que ninguém levava muito a sério, para campeão mundial e europeu de clubes por duas vezes.

O que quero do meu FC Porto é que regresse àquela eficácia bonita, de um clube que se afirma muito mais do que por resultados. Um clube de estádio, mas também de museu. Um emblema de números, mas também de afetos. Numa época em que os jogadores são ‘apenas’ quem executa um trabalho que envolve milhares de pessoas, desde quem lhe lava as botas, até quem lhes aperta a mão na assinatura dum contrato milionário, é tempo de o FC Porto sair à rua e lembrar o quanto ama a sua cidade e os seus adeptos. Mostrar a capacidade organizativa, a dinâmica empresarial, mas também a sua cultura às suas gentes.

Quando isto acabar, porque vai acabar, há que se celebrar com quem mesmo não estando lá agora (não porque não queira, mas porque não pode), haja título ou não. Porque o que está aqui em causa é muito mais que isso: é não deixar morrer o clubismo, a fé no e do futebol, que é tanto mais que polémica, que azedume, que vitórias ou derrotas ou empates. Que é a vida de tanta gente e a saudade de tanta outra.

Quero ver o FC Porto nas ruas. Ganhe ou perca. A mostrar a sua cara, os seus jogadores. A encher as praças de gente, a tirar o pó às taças do seu belo Museu. A passeá-las pelas cidades. Um Porto em tournée, como o artista consagrado que é. Arrastando multidões, quando elas se formarem outra vez, mas pensando em cada átomo, cada portista que cintila na sua cada vez maior constelação de adeptos. Quero que a Gala dos Dragões de Ouro seja na rua, ou no estádio, para toda a gente, como o São João. Que haja um jogo de exibição, assim que possível, contra uma equipa de renome (porque não o Bayern Munique?), um jogo aberto aos sócios, a preços de outrora. Com uma fanfarra a tocar, com bandeiras azuis e brancas distribuídas cá fora pelas dragonetes da SAD. Tudo vivo. À grande, à Porto. À Portuguesa.

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