Portugal não gosta de futebol

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Ao contrário do que muita gente diz por aí, considero que os portugueses não são grandes amantes de futebol. Excepção feita à epopeia do Euro’2004 - onde observámos, de facto, uma alegria colectiva em torno da Selecção - o pessoal cá da terra gosta é do seu clube. E mesmo isso...

Os britânicos, por exemplo, podem dizer que são completamente loucos pelo desporto-rei. Mais do que acompanharem, aos magotes, as suas equipas por todo o Mundo, os descendentes dos inventores da modalidade não perdem uma oportunidade para confirmar essa paixão. Lotam os estádios (independentemente das divisões, do dia ou do horário dos embates), rejeitam trocar a chuva e frio das bancadas pelo quentinho dos seus sofás e têm uma verdadeira relação de fé com este desporto. Se passarem perto de um “pub” e a televisão estiver a transmitir uma partida, os britânicos agem por impulso: entram e sentam-se (admito que, caso o estabelecimento não tenha cerveja, possam reconsiderar...). O nome das equipas e dos jogadores são meros pormenores.

Os portugueses são muito diferentes. A esmagadora maioria prefere seguir as incidências do seu clube à distância. Isso de ir aos estádios é coisa passada. E a culpa não é da má qualidade dos palcos. Portugal tem muitos estádios de fazer inveja a qualquer nação. O elevado preço dos bilhetes, é verdade, contribui para a contínua diminuição do número de espectadores. Mas isso, assim como o facto de praticamente todos os duelos dos grandes merecerem honras de transmissões televisivas, não justifica tudo. O problema é a falta de paixão.

As carreiras decepcionantes de Benfica e Sporting na Liga não ajudam a que os simpatizantes dos dois emblemas optem por assistir, “in loco”, aos jogos, mas tal comportamento confirma, mais uma vez, a tremenda diferença entre lusos e ingleses. O Liverpool, por exemplo, anda há um ror de anos atrás do título inglês. Não o consegue e, pior que isso, tem gasto rios de dinheiro. Mas, o sofrimento causado pela desilusão jamais se transforma em abandono. Os adeptos, fiéis aos seus amores (modalidade e clube), rejeitam virar as costas. Nunca assobiam. Bem pelo contrário.

Bem diferente é o que se vê em torno dos clubes da capital. A ausência de resultados apanha tudo e todos. Na Luz, Vieira até pode ter recuperado a imagem do clube, mas não percebe de futebol; Camacho era um sonho antigo, mas agora não passa de uma segunda versão de Fernando Santos e entre os futebolistas, Luisão já não é assim tão bom, Katsouranis é indisciplinado, Rui Costa está velho, Nuno Gomes não serve nem para uma equipa de segunda linha e Cardozo não vale um centésimo do investimento. Em Alvalade, o cenário é idêntico: Soares Franco é apenas um fraco gestor; Carlos Freitas recebia prémios injustificados; Paulo Bento é excelente... mas para os juniores; Veloso devia apostar em definitivo na moda; Liedson e Stojkovic são uns fala-baratos e Djaló e Pereirinha desprestigiam a tão famosa Academia...

Por cá, imagine-se, até uma parte significativa dos apaniguados do FC Porto – clube que tem o campeonato no bolso, continua na corrida pela Liga dos Campeões e pela Taça de Portugal – resolve assobiar a equipa... quando ganha! Ainda por cima, o alvo preferencial é só o elemento mais tecnicista, o mais espectacular, o que mais vezes aparece nos golos, ora marcando, ora assistindo.

Se mais provas fossem necessárias, os recentes apupos a Quaresma comprovaram que os portugueses, grosso modo, não gostam de futebol. A novidade é que, pelos vistos, já nem do seu clube, nem dos seus elementos fulcrais, gostam. É triste!

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