Português sofre
Confesso: o Real Madrid é a única equipa do Mundo que consegue pôr-me a puxar pelo Bayern Munique. Não que não tenha admirado as grandes equipas do Real. A sublime e inesquecível de Zidane, Raúl e Figo. Mas juntar “Real” com “Madrid” faz-me herpes na alma.
Sim, sempre admirei temendo aquele monstro de Madrid, que projeta a sua imensa sombra branca e imperial por toda a Ibéria. Os jogos com galegos, bascos, especialmente bascos, e catalães, em que sobem das bancadas as vozes que entoam vivas a Espanha, sempre me fizeram temer assistir ao dia em que este país que amo, este povo a que me devo, fosse de novo devorado por uma amálgama de nações com domínio em Madrid.
Não sou nacionalista no sentido último, bélico contra o diferente, mas antes um nacionalista instrumental. Elejo apenas um velho conceito, que dita que a cada Nação deve caber o direito de se organizar como Estado, como o que ainda mais defende a liberdade de povos com passado, identidade e língua próprios, na saudável autodeterminação. Foi, aliás, ao abrigo deste princípio que se deram os movimentos de descolonização após a II Guerra Mundial.
A identidade nacional, porém, faz-nos desejar o sucesso dos que connosco partilham o destino de nascer português. Por isso, Mourinho, Ronaldo, Carvalho e Pepe – sim Pepe, pois português deve ser também quem quer e faz por o merecer – conseguiram o efeito que o frio e solitário Figo não logrou: estou a puxar pelo sucesso do Real Madrid em todas a competições. Enquanto este punhado de bravos por lá se mantiver. Especialmente Mourinho. E foi assim que levei cinco bofetadas e um baile em pleno gabinete, exatamente antes de escrever esta crónica.
Decididamente, puxar por um “Real”, para mais de “Madrid”, ontem, não correu nada bem.
