Preferem o barulho

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Ao contrário do que é tantas vezes dito com ignorância, não há nenhum artigo dos regulamentos oficiais que digam que é proibido impedir um jogador cedido de defrontar o clube com o qual tem contrato. A questão levantou-se no Benfica-Belenenses da primeira volta (apesar de, no caso, nem se tratar de jogadores emprestados) e agora está de novo na ordem do dia e por culpa de Rui Fonte, avançado cedido pelos encarnados aos azuis do Restelo.

A única referência a estes casos surge no artigo 52.º do Regulamento de Competições, mas o que lá está escrito é que "são nulas e de nenhum efeito quaisquer cláusulas" nesse sentido. Isto é: não são proibidas; apenas não têm validade e, por isso, o clube que as violar não poderá sofrer sanções. Mas em lado nenhum, em particular no Regulamento Disciplinar, estão estabelecidos castigos para quem recorra a este "truque" que pode facilitar a vida em determinados jogos.

A posição ontem reafirmada por Jorge Jesus - e que vai de encontro à explicação dada por Jorge Simão, treinador do Belenenses - é legítima. E se Rui Fonte, no último minuto, falhar o golo do empate ou da vitória? O que será dito sobre ele? Mas quer isto dizer que a prática é correta e saudável? Claro que não. O problema é que este mal está nas raízes de toda a estrutura do futebol português, onde a maior parte dos clubes vive, ano após ano, à conta de futebolistas excedentários dos grandes, sejam eles emprestados ou cedidos a título definitivo com partilha de passes. Rui Fonte, como Deyverson e Miguel Rosa, é uma mais-valia no Belenenses, assim como Tiago Rodrigues é no Nacional, Kléber e Tozé são no Estoril, Iuri Medeiros no Arouca ou Esgaio na Académica.

Por isso, a única forma de encarar o problema de frente é limitar os empréstimos entre clubes da mesma competição. Ao mesmo tempo, reduzir o número de jogadores que cada emblema pode ter por empréstimo - um, no máximo. Depois, no caso das cedências definitivas, investigar cada um dos problemas gástricos que normalmente surgem nas semanas da polémica. Tudo isto implica uma alteração profunda aos regulamentos, mas isso é uma missão dos clubes. E, muito provavelmente, nenhum deles quer mudar nada. Mais vale fazer barulho de tempos a tempos.

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