Próprio de um pequeno homem

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Estava eu muito divertido a ver na SIC Notícias o interessante "O Dia Seguinte", com os impagáveis amuos de Dias Ferreira e Fernando Seara – duas personalidades por quem, devo confessar, sinto grande simpatia –, quando Pedro Mourinho chamou a atenção para imagens da festa benfiquista. Pudemos então ver, aos pulos no piso superior de um autocarro aberto, alguns jogadores encarnados – e nomeadamente aquele que deveria ser o mais responsável porque se julga líder exclusivo – que pareciam apoiar, e mesmo cantarolar, o tristíssimo "ó Pinto da Costa vai pró c...!"

Quero acreditar que se tratou de um equívoco, que os adeptos cantavam esse refrão mas que os jogadores saltavam apenas aos gritos de "Benfica! Benfica!", que fui eu que sonhei, enfim, qualquer coisa. Porque se aquela cena de facto existiu, se houve mesmo profissionais de futebol e jogadores internacionais que aproveitaram a hora nobre da vitória para insultarem o presidente de um dos rivais, caindo na boçalidade mais nojenta, então já não existe mais vergonha. Eu sei que meio País vive em euforia – e é por isso mesmo que esta indignidade não pode contar com o meu silêncio.

1. J. Peseiro

Tinha escrito que a época do Sporting se podia resumir à perda da Taça de Portugal, depois de ser eliminado pelo Benfica, à perda da SuperLiga, após nova derrota com o grande rival no "derby do título", e à perda da Taça UEFA, ao baquear frente ao CSKA, em Alvalade. Afinal, ainda havia um quarto insucesso à espera de Peseiro: a perda da qualificação directa para a Liga dos Campeões, face à derrota em casa perante o Nacional. São muitas perdas para um homem só, para um treinador que, nem sempre acertando em tudo, construiu a equipa que melhor futebol praticou este ano em Portugal. Se nos lembrarmos da falta de sorte de Carlos Queiroz na final da Taça de Inglaterra, talvez se acredite que trouxeram algum bruxedo de Madrid...

2. A. Costa

O dr. Dias da Cunha, à saída do Estádio de Alvalade, depois do animado Sporting-Nacional, manifestou o seu desagrado pela arbitragem de António Costa, realçando, ao mesmo tempo, a boa exibição que acha que a sua equipa fez. Mas não fez. Aliás, nunca o Sporting poderá ficar satisfeito com a sua própria prestação depois de levar "chapa 4" numa qualquer partida, quanto mais num jogo disputado no seu terreno. Creio que o líder leonino não fez uma leitura desapaixonada daquilo que se desenrolou em campo. Mas compreendo-o perfeitamente. O trabalho de António Costa foi tão mau, tão incompetente que até um santo perdia a paciência. E como já não é a primeira vez, pior ainda. Não se pode tirar-lhe o apito?

3. L.F. Vieira

Lá estavam metade dos portugueses à espera da desgraça da outra metade, "jogando" na roleta russa. E podia ter acontecido que não marcasse Joeano mas sim Hugo Almeida... Uff! Certo é que no final quem ganhou foi o Benfica e nunca existe um campeão sem mérito. A obra é de Trapattoni, dos outros técnicos, dos jogadores e de uma massa de adeptos que enche todos os estádios do País. Mas é também tempo de se reconhecer que Luís Filipe Vieira conseguiu enfim resolver o grande problema do Benfica na última década: a crise de liderança. Hoje, o clube da Luz só é campeão porque LF Vieira arrumou a casa, estabeleceu o objectivo, identificou a estratégia e encontrou os líderes – Trap e ele próprio.

4. Nasceu um monstro

O aviso ouvi-o da boca de Artur Portela, porta-voz da moribunda Alta Autoridade para a Comunicação Social e meu antigo director no "Jornal Novo" (1975/1976) – para ficar com os títulos da Lusomundo, Joaquim Oliveira deveria vender "O Jogo". Com todo o respeito pela recomendação da AA, dei comigo a pensar por que carga de água iria Joaquim Oliveira alienar um título de um grupo que não tem mais nenhuma publicação especializada em desporto. E hoje já parece seguro que não vai, mesmo, abrir mão de nada. A verdade é que os temores da AA começaram a confirmar-se na festa de anteontem da SuperLiga, em que "O Jogo" e os jornais da Lusomundo puderam circular livremente e fazer o seu trabalho, e os outros "desportivos", como Record e "A Bola", foram obrigados a ficar à porta, perante a passividade dos responsáveis da Liga. Espero que a Alta Autoridade para a Concorrência tome note deste sinal, que nada augura de bom – muito pelo contrário parece ser até o nascimento de um monstro – para o futuro da liberdade de informação em Portugal.

5. P. Costa

Sempre ele, verdade se diga. Pinto da Costa escapou à festa da SuperLiga e rodeou-se de incondicionais para contar umas anedotas, arte em que é imbatível. E pelo meio foi lançando umas farpas a que não escapou sequer este seu modestíssimo não-inimigo (por muito que ele diga e faça, na minha cabeça os sentimentos são arrumados segundo a minha vontade e não a dele). Parece que o meu crime, à falta de melhor exemplo, foi ter escrito na revista "Sábado" que a auto-estima dos portugueses, de alguns naturalmente, melhoraria muito se o Benfica fosse campeão. Pinto da Costa, se calhar, pensa que faço parte de alguma associação anti-FCP. Acontece que não só não faço, como gosto demasiado de azul. E da canção da Grécia.

Ameaça brutal sobre os jornais

Está marcado para hoje o anúncio por parte do Governo das duras medidas de austeridade destinadas a reequilibrar as finanças públicas. Uma das decisões possíveis prende-se com o aumento do IVA sobre os jornais, actualmente de 5%. Num País sem hábitos de leitura e com um poder de compra em queda, essa eventual medida seria catastrófica para a imprensa e em especial para a desportiva, que há muito perdeu competitividade nos preços. Fecho esta página ainda com uma réstia de esperança de que o bom senso prevaleça e que Portugal não se transforme numa Quinta das Celebridades com um deserto à volta. Deserto de cultura e de cidadania.

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