Prova de fogo

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Durante semanas, baseados numa equipa de golo abundante e numa dinâmica temível, os benfiquistas alimentaram a ilusão de chegar ao clássico que fecha o ano civil numa posição invulgar: em vantagem anímica e em distância pontual suficientes para que fosse o FC Porto a equipa colocada sob pressão na partida da Luz.

Afinal, não será bem assim. Nas últimas três jornadas, o Benfica perdeu quatro pontos para os campeões nacionais e deixou que se instalasse - de forma prudente ou precipitada, pouco importa - a ideia de uma crise ou, ao menos, de um abaixamento de forma. Pelo contrário, a Norte, embora sem provas concludentes além das vitórias em Guimarães (muito afortunada) e em Madrid (essa sim, a roçar o brilhantismo), a imagem presente é a de um grupo consolidado, em subida na dinâmica e no aproveitamento. Ora, como ficou demonstrado com os múltiplos descontrolos registados em Olhão, nos domínios da tática, da concentração e da disciplina, essa aura que rodeia as equipas é muitíssimo importante. Nesse campo, o FC Porto continua a ser um papão, um fantasma capaz de desestabilizar as rotinas e de complicar os comportamentos do lado do Benfica, a um ponto que carece de lógica e sustentação.

Queixam-se agora os encarnados da necessidade de mexer radicalmente no miolo da equipa: sem Ramires, sem o pronto-socorro Ruben Amorim, sem Di María e sem Fábio Coentrão, quem sabe se sem Aimar, Jorge Jesus vai precisar de imaginação e trabalho para desenhar uma alternativa válida para domingo, tanto mais que não é improvável ver Jesualdo Ferreira fazer alinhar Guarín no lugar de Belluschi, para ganhar em músculo e rigor o que pode perder em criatividade.

É precisamente aqui que Jesus tem o momento-chave para se confirmar como a mais-valia até agora reconhecida. Com alguns arranjos previsíveis (David Luiz à esquerda, Carlos Martins de regresso) e com surpresas possíveis (oportunidade para Urreta?), cabe-lhe a missão - difícil - de fazer esquecer as ausências através da atitude dos presentes. Mais do que chorar as falhas, precisa de garantir que o onze chamado a começar a partida vai agigantar-se... para matar o fantasma.

É paradoxal, mas tenho como verdadeira esta noção: uma derrota do FC Porto vale ao Benfica alguma respiração e, sobretudo, muita motivação, sem descurar tudo o que virá a seguir. Já uma derrota do Benfica pode ser a primeira pedra no edifício do penta, pelo desastre psicológico que trará associado. Ou seja, embora à frente na classificação, é o Benfica que precisa de ganhar. Até para acabar de vez com o mito das grandes equipas se verem só nos grandes jogos, uma meia verdade que muitos campeonatos desmentem. Têm a palavra os artistas. Mas também os guerreiros.


 

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