Quando a primeira decisão é não jogar
A recente final da Liga dos Campeões, será com toda a certeza, amplamente analisada por quem procura compreender as tendências e a evolução do futebol moderno. Há uma tendência cada vez mais comum que desafia a lógica do jogo e que na minha opinião não merece ser celebrada. Se ter a bola é importante porque começamos a perdê-la?
O árbitro inicia o jogo e a equipa em posse em vez de iniciar a construção do seu jogo ofensivo decide chutar diretamente para fora ou para o ar em defesa de uma estratégia que dizem ter. Quando a primeira ação do jogo é abdicar da posse de bola de forma deliberada, talvez seja legítimo perguntar se o futebol não estará a complicar aquilo que sempre foi simples.
Durante mais de um século o início do jogo simbolizou a vontade de jogar, hoje significa uma estratégia que se inicia em não estar preparado para jogar, pelo menos, nos primeiros segundos do jogo! Numa era onde a audácia ofensiva é tão prezada esta tendência é paradoxal. Os defensores desta prática apresentam explicações táticas/estratégicas. Falam da importância de evitar o primeiro momento de pressão do adversário, da possibilidade de conquistar terreno de jogo no meio campo ofensivo, conquistar segunda bola, organizar pressão próxima da baliza do adversário, ou até mesmo limitar a ação do jogador adversário mais decisivo. Tudo muito racional pelo menos no papel. O problema é que ao levar esta lógica ao extremo, o futebol corre o risco de perder o sentido do ridículo.
Se as equipas trabalham diariamente para melhorar as suas competências de jogo, onde ter bola significa o contrário para o adversário, faz pouco sentido que a sua primeira decisão seja abdicar voluntariamente da mesma. É uma mensagem contraditória. Treina-se para a ter, para a usar com objectividade e de acordo com a identidade de jogo pretendida e depois ao primeiro apito um pontapé para o céu ou para fora das quatro linhas. Esta tendência é também um reflexo de uma doença cada vez mais presente no futebol moderno: a obsessão pelo controlo absoluto.
Há quem procure transformar cada segundo do jogo num exercício matemático, procurando eliminar qualquer margem de imprevisibilidade. O resultado são comportamentos que até podem ser estatisticamente justificáveis, no entanto, não passam de algo absurdo para quem vê o jogo com olhos de adepto. O futebol é um desporto de risco, o simples facto de se querer construir a partir de trás ou a decisão por um passe vertical implica riscos. Iniciar o jogo e ficar imediatamente susceptível à pressão do adversário também os implica mas fugir sistematicamente do risco no inicio do jogo não é necessariamente sinal de inteligência; por vezes é apenas uma demonstração de falta de ambição.
É difícil não olhar para esta moda com algum ceticismo. O pontapé de saída deve ser o inicio de uma intenção com bola e não a disputa de um balão sem critério ou de um lançamento lateral planeado ao milímetro. O futebol já tem demasiadas interrupções, não precisa de transformar o segundo toque na bola numa oportunidade para evitar jogar. Talvez seja apenas mais uma moda passageira destinada a desaparecer quando os treinadores perceberem que nem tudo o que é diferente é necessariamente melhor. Encarar cada segundo de jogo como um problema estratégico não deixa de fazer sentido, no entanto, ao escolher o que fazer exige-se mais imaginação e critério.
