Quando um clube histórico fecha as portas perdemos todos
Quando um clube histórico fecha as portas, perdemos todos
Hoje o Boavista fechou as portas.
Independentemente das decisões judiciais, das responsabilidades de quem dirigiu o clube ao longo dos anos ou das circunstâncias que conduziram a este desfecho, há uma realidade impossível de ignorar: o futebol português ficou hoje mais pobre.
O Boavista não é apenas um emblema. É um campeão nacional. É um vencedor da Taça de Portugal. É um estádio cheio de memórias. É uma identidade construída ao longo de mais de um século por milhares de famílias que passaram o amor ao clube de geração em geração.
Quando um clube destes desaparece, não desaparece apenas uma sociedade desportiva.
Desaparece um pedaço da nossa história.
Infelizmente, o Boavista não está sozinho. Antes dele caíram o Vitória de Setúbal, o Beira-Mar, o Salgueiros, o Olhanense e tantos outros que fizeram parte da identidade do futebol português. Clubes que deram internacionais, encheram estádios, conquistaram títulos e escreveram capítulos que jamais poderão ser apagados dos livros.
A pergunta que devemos fazer é simples: como chegámos aqui?
Durante anos fomos convencidos de que a sustentabilidade do futebol se mede quase exclusivamente pela apresentação de declarações de não dívida, pelo cumprimento de obrigações fiscais e por controlos salariais. Tudo isso é importante. Ninguém o discute.
Mas será suficiente?
Os números dizem-nos que não.
No encerramento das contas da última época, 11 dos 18 clubes da I Liga apresentavam capitais próprios negativos. Em conjunto, acumulavam um passivo superior a 1.732 milhões de euros. Em termos contabilísticos, a maioria do futebol profissional português vive numa situação de enorme fragilidade.
Perante esta realidade, será legítimo perguntar se o modelo de controlo que seguimos há tantos anos está verdadeiramente a proteger o futebol… ou apenas a adiar problemas maiores.
Ao mesmo tempo, assistimos a um fenómeno silencioso.
Cada vez mais investidores escolhem clubes sem massa associativa, sem pressão e sem história. É uma opção perfeitamente legítima do ponto de vista empresarial.
Mas o resultado está à vista.
Temos estádios vazios. Clubes desligados das suas comunidades. Equipas que jogam a dezenas de quilómetros da cidade que representam. Recintos com capacidade para mais pessoas do que habitantes existem na própria localidade.
E, enquanto isso acontece, os clubes históricos continuam a desaparecer.
Perde o futebol.
Perdem as cidades.
Perdem as regiões.
Perdem as novas gerações, que deixam de crescer com a rivalidade saudável entre clubes que davam vida às suas comunidades.
O futebol nunca foi apenas um negócio.
O futebol é pertença.
É memória.
É identidade.
É o avô que leva o neto pela primeira vez ao estádio. É a camisola herdada do pai. É a rua cheia depois de uma subida de divisão. É uma cidade inteira que encontra no seu clube uma forma de se reconhecer.
Quando um desses clubes morre, nenhuma nova sociedade desportiva consegue substituir esse património emocional.
Falo disto também por experiência.
Quando aceitei ajudar a reconstruir o Estrela da Amadora, fi-lo porque acreditava que a história não podia terminar ali. O mérito dessa refundação pertence, antes de mais, aos seus refundadores, que nunca deixaram morrer a chama do clube. A partir dessa base, houve quem acreditasse que era possível devolver o Estrela ao lugar onde a sua história sempre o colocou.
Recuperar um clube histórico não significa apenas voltar às competições.
Significa recuperar uma identidade.
Recuperar um estádio.
Recuperar símbolos.
Recuperar memórias.
Recuperar o orgulho de uma comunidade inteira.
É um caminho longo, difícil e muitas vezes incompreendido. Mas quando se acredita verdadeiramente no valor da história, percebe-se que há patrimónios que não podem ser medidos apenas por um balanço financeiro.
Por isso, hoje não escrevo apenas sobre o Boavista.
Escrevo sobre todos os clubes históricos que lutam diariamente para sobreviver.
Porque o futebol português precisa dos seus grandes clubes regionais. Precisa das suas rivalidades. Precisa das suas cidades representadas ao mais alto nível. Precisa da emoção que só a história consegue criar.
Espero sinceramente que, tal como aconteceu com o Farense, com o Estrela da Amadora e com outros exemplos de resistência, também o Boavista encontre força para renascer.
Os clubes centenários podem cair.
Mas a sua história nunca deve morrer.
Porque há instituições que pertencem aos seus adeptos, às suas cidades e ao património coletivo do nosso país.
E enquanto houver alguém disposto a acreditar nelas, haverá sempre esperança.
Ao Boavista, deixo apenas uma palavra:
Até já.
