Quantos apóstolos tem afinal Jesus?
As primeiras páginas dos jornais de ontem e o tom das críticas em redor do futebol do Benfica e, particularmente, à volta de Jorge Jesus, dão o mote para aquilo que parece evidente aos olhos da opinião pública: aproxima-se um fim de ciclo na história do futebol dos encarnados. O fim de ciclo (desportivo) de Jorge Jesus, que se confunde com a profunda crise de regime da presidência de Luís Filipe Vieira.
Mais uma vez se confirmam as duas leis dominantes do futebol: os resultados são inexoráveis e quem manda, efectivamente, em momentos de crise acentuada, são os jogadores. E os jogadores, que já haviam exibido sinais de fadiga psicológica perante a liderança deste treinador, vão decidir amanhã, na Amoreira, se esticam o último lençol da cama de Jorge Jesus, que vinham fazendo com particular desvelo.
Perante a ausência de reacção nos últimos jogos (Belenenses e PSG) é verosímil que, entre os jogadores, possa haver mais carrascos do que salvadores, até porque os últimos meses concorreram para o isolamento do treinador, e nesse aspecto Luís Filipe Vieira não teve a sensibilidade suficiente para proteger o técnico em que, afinal, apostou. Jesus foi submetido a uma brutal exposição e, pressionado até ao limites, acabou por cometer erros que, noutras condições, não cometeria.
Não é muito difícil prever o que vai acontecer: o Benfica vence na Amoreira e Jorge Jesus ganha um balão de oxigénio, porque a seguir a Liga pára e é retomada com a recepção ao Nacional e uma visita a Coimbra, havendo um Benfica-Braga no fim de Novembro; o clube da Luz perde pontos na Amoreira e Luís Filipe Vieira tem cerca de 20 dias para achar um novo técnico, com Rui Vitória e Marco Silva entre os principais candidatos... Outra vez o Estoril no caminho do Benfica, em condições especiais: na época passada, os estorilistas impuseram um inesperado empate na Luz e contribuíram decisivamente para o volte-face no campeonato...
Se os jogadores esticarem o último lençol de Jorge Jesus, levanta-se uma questão central: Vieira e o Benfica não poderiam ter evitado uma penalização financeira tão grande para os cofres da Luz em função da rescisão prematura de um contrato acordado recentemente?
Uma coisa é certa: se Vieira tivesse Jesus no ponto máximo de tolerância teria aproveitado o incidente em Guimarães protagonizado pelo seu treinador para uma rescisão com justa causa, com menores danos (financeiros) para o Benfica. Neste quadro, a amizade e a proximidade entre ambos acabará por ter um elevado custo para o Benfica.
Um terceiro cenário, de Vieira aguentar Jesus independentemente dos resultados, é menos verosímil, porque Vieira já está demasiado associado a Jesus (e vice-versa) e não quererá contribuir para a perda de confiança que ainda tem junto da massa associativa e dos adeptos benfiquistas. É que a oposição cresce, externa e também internamente, e em muitos sectores já há a convicção de que no Benfica, mais do que uma crise conjuntural instalou-se uma crise de regime. E uma crise de regime responsabiliza Vieira e o “vieirismo”, seja lá o que isso for...
Por outro lado, com tanta indefinição à sua volta, em Jorge Jesus instalou-se a dúvida: devo ser eu igual a mim próprio ou devo tentar ser aquilo que à minha volta querem que eu seja? Quando as dúvidas se instalam a este nível; quando os responsáveis não percebem que é preciso intervir em vez de deixar andar, há um dia em que a governação se torna impossível. Sempre defendi que este treinador, por ser um treinador especial, com enormes atributos mas com alguns défices, precisaria de um outro tipo de enquadramento, e não apenas ao nível da equipa técnica. Isso foi desvalorizado. Um erro colossal.
Jorge Jesus nunca deveria ter aceitado continuar no Benfica, se Cardozo continuasse. Era uma questão de auto-estima e dignidade. Foi um momento de fraqueza e, ao mesmo tempo, um sinal para o balneário. Ficou mais difícil, com a autoridade abalada, fazer passar a mensagem para os jogadores. Comunicar com eles. Obter ou prolongar o seu respeito pela voz de comando. Não é preciso ser um guru em matéria de liderança para perceber algo tão comezinho. Não era o perigo de Jesus levar uma lambada, outro empurrão ou uma agressão ainda mais violenta. Era o efeito de uma imagem terrível, algo que se tem de entender como “proibido” no código pré-estabelecido entre treinador e jogadores.
O Benfica (Vieira) não entendeu assim e Jesus, confiante nas suas possibilidades e no alegado porreirismo do presidente, foi na conversa. Há muita gente dentro do Benfica que nunca tolerou o sucesso de Jorge Jesus no futebol dos encarnados. Gente que esteve perto dele e gente a quem agora se recomenda a aproximação ao treinador. A contagem decrescente começou.
JARDIM DAS ESTRELAS - *****
João Sousa e... 4xRui
Semana cheia de... estrelas: Rui Costa, João Sousa e... o clássico do costume: o desempenho desportivo, resultado de investimentos e sacrifícios pessoais, à margem do Estado, e a comunidade política a cavalgar a onda do sucesso. Por falar em classe política, dois destaques: para Rui Rio, que cumpriu com distinção a sua missão autárquica na Câmara do Porto, onde soube fazer a magna destrinça entre política e futebol, algo que deveria servir para figurar nos manuais da res pública e para Rui Moreira, que lhe sucede, e tem agora a responsabilidade, como emérito portista, de não clubitizar a edilidade, sendo certo porém que vai “desfundamentalizar”, neste particular, a visão dura (e útil para a higienização da democracia portuguesa) de Rui Rio. Para completar o “4xRui”... Rui Vitória: não foi só o empate em Lyon; é o belo trabalho que está a realizar em Guimarães.
O CACTO
Concessões
Vítor Pereira patrocina a nomeação de Manuel Mota para o Estoril-Benfica e Vasco Santos para o Arouca-FC Porto, o que significa que as queixas foram ouvidas, registadas, ponderadas e devidamente assimiladas. Fora desta lógica... o Sporting: há uns meses Duarte Gomes seria provocação; assim, pode ser um sinal que não é... “para ser levado ao colo”. As (i)lógicas das nomeações-concessões...
