Quem controlará o futuro do Benfica amanhã?

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O debate em torno da venda da posição de José António dos Santos não deve centrar-se na possibilidade de o Benfica adquirir apenas mais 3% da SAD para atingir os dois terços do capital e dos direitos de voto.

Essa é uma visão curta e insuficiente para a dimensão dos desafios e oportunidades que o Clube enfrenta.

O verdadeiro objetivo estratégico deveria ser outro: recuperar a totalidade dos 16,38% atualmente em alienação e devolver ao Benfica a capacidade de decidir, sem condicionamentos, quem quer ter ao seu lado no futuro.

Comprar apenas 3% pode resolver uma questão estatutária ou de controlo imediato. Comprar os 16,38% resolve uma questão estrutural.

A diferença é enorme.

Mais ainda quando existe informação de que terá sido produzido um parecer jurídico recomendando o veto da operação. Se esse parecer existe e conclui pela necessidade de travar o negócio, então é fundamental perceber porque razão continua a existir pressão para viabilizar a entrada deste veículo na estrutura acionista da SAD.

A questão é simples: quem tem interesse em acelerar esta operação? E porquê?

O Benfica merece total transparência sobre um tema desta relevância.

Ao adquirir a posição integral, o Benfica ganha tempo, flexibilidade e poder negocial para construir uma estrutura acionista alinhada com os seus interesses de longo prazo. Em vez de ficar dependente de um investidor financeiro ou de uma SPV, cuja natureza será sempre maximizar o retorno do investimento, o Clube poderia selecionar parceiros estratégicos e institucionais que acrescentem valor efetivo ao seu projeto.

Uma SPV continuará sempre a ser uma SPV. Não é um parceiro estratégico. Não traz identidade benfiquista. Não garante alinhamento de longo prazo. E quando chegar o momento da saída, o seu objetivo será vender pelo maior valor possível, independentemente das consequências para a estabilidade acionista do Benfica.

O modelo a observar não é o de fundos oportunistas. É o do Bayern Munique.

O Bayern construiu uma estrutura acionista sólida, envolvendo parceiros industriais e institucionais de referência, alinhados com a sua visão estratégica e com o crescimento sustentável do clube. Empresas que não procuram apenas uma mais-valia financeira, mas que reforçam a marca, a competitividade e a projeção internacional da instituição.

Esse deveria ser o caminho do Benfica.

Por outro lado, a tentativa de justificar esta operação através de promessas associadas ao Benfica District merece particular prudência.

O Benfica District continua a apresentar mais perguntas do que respostas. O conceito representa um investimento de enorme dimensão, complexidade elevada e retornos que permanecem por demonstrar.

O risco é evidente: transformar um problema acionista numa oportunidade para ressuscitar um projeto cuja viabilidade económica continua longe de estar consensualizada.

Mais importante ainda, existe uma alternativa muito mais racional e com retorno muito mais previsível: a modernização do Estádio da Luz.

O estádio é já hoje um dos principais ativos do Benfica. Melhorar a experiência dos adeptos, renovar áreas premium e hospitality, aumentar a capacidade, aumentar receitas de matchday, reforçar a oferta comercial, atualizar infraestruturas tecnológicas, instalar piso e cobertura retrateis garantido multifuncionalidade e elevar os padrões de conforto e serviço são investimentos com impacto direto no valor do ativo e na capacidade de geração de receitas.

Ao contrário do Benfica District, que assenta em pressupostos ambiciosos e investimentos de elevado risco, a modernização do estádio representa uma estratégia de valorização patrimonial com retorno mais tangível, mais controlável e mais alinhado com as necessidades atuais do Clube.

O Benfica não precisa de embarcar em projetos megalómanos para crescer. Precisa de fortalecer os seus ativos fundamentais.

O foco deve estar na criação de valor sustentável e não em projetos que podem consumir centenas de milhões de euros, desviar recursos e aumentar o risco financeiro do Clube.

A discussão não deve ser sobre como garantir mais 3%.

Deve ser sobre como recuperar os 16,38%, reforçar a posição do Clube na SAD e construir, com serenidade e visão estratégica, uma base acionista de excelência, composta por parceiros verdadeiramente alinhados com os valores, a identidade e as ambições do Benfica.

Se existe um parecer jurídico que recomenda o veto da operação, então o caminho responsável é simples: suspender qualquer precipitação, esclarecer todas as dúvidas e defender os interesses do Benfica acima dos interesses de qualquer investidor externo.

Porque a questão central não é quem entra hoje. É quem controlará o futuro do Benfica amanhã.

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