Quem enganou a Irlanda?
A forma como a França sentenciou o "playoff" que valia uma vaga para o Mundial do próximo ano não permite que os irlandeses se conformem com a eliminação. Os dias vão passando, mas a indignação mantém-se. E vai continuar, pois por mais que federação, treinadores, jogadores ou políticos gritem bem alto o que lhes vai na alma... a decisão está tomada desde a noite de quarta-feira.
Não conheço ninguém capaz de dizer que o golo de Gallas não é ilegal. Qualquer pessoa sem problemas de visão viu que a bola bateu no braço de Henry e, de seguida, foi ajeitada com a mão de forma a facilitar o cruzamento. Por outras palavras, o juiz podia ter marcado, em momentos distintos, duas infracções. Mas, como se sabe, não assinalou nada. A não ser a reposição de bola no meio-campo...
Tenho dificuldade em defender que o árbitro (e os respectivos auxiliares) tenha, de propósito, validado um golo irregular. Acredito - até porque o lance é rápido e ocorre numa zona em que a visibilidade dos juízes pode não ser a melhor -, pura e simplesmente, que não foi capaz de vislumbrar a infracção. No entanto, porque sei bem a força que a França tem nas altas esferas do futebol internacional, tenho a certeza que se o lance fosse na área contrária, mesmo em caso de dúvida, o sueco teria interrompido a partida para marcar falta. Baseado em quê? Se calhar, apenas e só no facto dos jogadores "enganados" terem, em uníssono, levantado o braço a sinalar a falta...
Também não alinho no coro de críticas a Henry. O futebolista do Barcelona fez o que a esmagadora maioria dos atletas faz quando, em causa, está "tão somente" a participação no Mundial: arriscou. Ao cometer a ilegalidade, o dianteiro sabia bem que só podia ser feliz (como sucedeu) ou ser apanhado e, no máximo, ver um cartão amarelo. Arriscar, efectivamente, era tentador. Aliás, até o irlandês Duff já confirmou que, se fosse ao contrário, também teria tentado a sua sorte. Bem vistas as coisas, raro é o jogo de futebol em que os avançados não tentam simular um penálti ou os defesas não usam e abusam dos contactos nas bolas paradas. A questão é sempre a mesma: tentar levar vantagem sobre os opositores e a arbitragem.
Ora, assim sendo, quem foi o grande responsável pela mentira que deitou por terra o sonho irlandês? Os senhores que, longe da ribalta, continuam a considerar que o futebol de hoje deve ser gerido como o do século XIX.
De uma vez por todas, o futebol tem de evoluir e permitir que se utilizem, sempre que necessário, os meios tecnológicos para que a verdade desportiva impere na maioria dos casos. Não defendo, claro, que todas as decisões arbitrais possam ser "checkadas" com recurso ao vídeo, mas parece-me cada vez mais evidente que alguns lances (faltas dentro ou fora da grande área, pretensas mãos em jogadas de golo ou situações em que se torna complicado perceber se a bola entrou ou ficou em cima da linha, por exemplo) precisam mesmo de ajuda exterior para poderem ser devidamente julgados.
Alguém acredita que o juiz, os auxiliares ou o quatro árbitro (aquele que só serve para levantar placas) seria capaz de validar o golo se visse as imagens na televisão? Eu não!
PS - O pedido feito pelos irlandeses, para a repetição do jogo, jamais poderia ser atendido. Por isso é que Henry veio a público defender essa solução. Ele pode ter a consciência pesada, mas não é parvo. Mas, mesmo que fosse possível voltar atrás, também não me parece que repetir todo o jogo fosse lógico. Isso, embora de forma menos óbvia, continuaria a prejudicar os irlandeses. Recomeçar o encontro, aos 103 minutos, com uma falta contra a França na área da Irlanda é que seria justo. Essa era a única maneira de os forasteiros continuarem a precisar de apenas 1 golo para seguir em frente. Se o jogo fosse totalmente repetido, os pupilos de Trapattoni perdiam o golo de Keane e teriam de marcar 2...
PS 1 - Nunca simpatizei com o treinador da França. Domenech não tem só um ar estranho, também não me inspira confiança. E depois de vê-lo comentar toda esta "salganhada" só espero que, na África do Sul, a sua França possa ser afastada da prova com um lance idêntico. Pode ser que dessa vez, independentemente do local onde esteja sentado, tenha uma opinião concreta sobre a jogada.
