Quem manda no Benfica?

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O Benfica é um enorme porta-aviões e, como acontece na maior parte das empresas, com muitos funcionários e profusão de ‘chefias’, às vezes as lideranças intermédias e as decisões parcelares comprometem a ideia de comando. Nos clubes desportivos, cujo foco está no futebol, independentemente do seu grau de ecletismo, as chamadas “estruturas de apoio” são muito importantes no contexto geral mas não podem deixar de estar subordinadas ao objectivo de extrair do futebol profissional tudo o que ele pode significar e dar em termos de resultados e receitas.

Às vezes vemos por aí, em certos clubes, derivações de modelos de gestão desportiva que desprezam o essencial: o futebol, na sua componente de organização e de performance desportiva, tem de estar no topo das preocupações e, por isso, é que os treinadores e jogadores ocupam um papel crucial e nem sempre se torna fácil a coabitação entre o dirigente e o técnico desportivo/atleta. Às vezes parece o contrário, mas é a “estrutura técnica” (treinadores mais jogadores) que sustenta tudo o resto. A dimensão comercial de clubes como o Real Madrid e o Barcelona, por exemplo, é uma consequência da dimensão desportiva dos dois emblemas. Sem golos, sem vitórias e sem títulos, as receitas são menores e, por isso, quem não perceber, no futebol, a importância de ter uma ‘estrutura técnica’ de qualidade, sem menosprezo pelas tais ‘estruturas intermédias’, não percebe o essencial. Querem um exemplo? O Sporting-de-Roquette-a-Godinho Lopes’.

Parece claro que o Benfica, nos últimos (largos) meses, se foi preparando para uma mudança de paradigma estrutural. Talvez tenham sido a força e a convicção do seu último treinador (JJ) que tenham desviado o ‘foco’ que sempre esteve na mira da presidência de Vieira, mas hoje não há muitas dúvidas de que a generalidade dos ‘actores’ (internos) do Benfica não convivia bem com o facto da figura do treinador ser uma espécie de ‘centro de poder’ do futebol dos ‘encarnados’.

Luís Filipe Vieira tem, hoje, a rodeá-lo, uma equipa de profissionais genericamente competente que reflecte a sua imagem e vontade, mas que também exerce o seu próprio magistério de influência. Vieira é cada vez menos um homem de decisões solitárias (em boa verdade, nunca o foi) e, em relação a Jorge Jesus - o pomo de todas as discórdias — hesitou sempre muito entre as suas próprias convicções (próximas do reconhecimento do valor profissional do seu ex-treinador) e as convicções daqueles que lidavam mal com o poder e o protagonismo do (ex) técnico do Benfica.

Porquê? Porque Jesus não é homem de ‘falinhas mansas’ e não aceita interferências (directas ou indirectas) no balneário. O ‘desprezo’ com que tratava a ‘estrutura’ — “a estrutura sou eu” — teve o resultado que se conhece: Vieira ficou com a ‘estrutura’ e sem o treinador, a pensar que Jorge Mendes lhe resolveria o problema (Jesus), partindo do princípio que o Sporting não tinha capacidade financeira para o contratar e com a informação de que o FC Porto não estava disposto a prescindir de Lopetegui.

Como já toda a gente percebeu, o plano saiu furado e tudo o que esta semana se ouviu foram manifestações de despeito e vingançazinhas menores. Nada disto teria acontecido se o assunto tivesse sido tratado frontalmente, sem hipocrisias, silêncios ou meias palavras, entre Vieira e Jesus. Jesus só tem de estar grato ao Benfica como o Benfica só tem de estar grato a Jesus. Tudo o resto são ‘cenas’ de… pátio das cantigas. Já o disse e repito que, sendo 2016 ano de eleições, Vieira interrompeu o ‘ciclo Jesus’ na pior altura. Também por isso, precisa de voltar a ganhar o campeonato esta época…

Parece agora imensamente claro que, no futebol, Vieira investiu quase tudo na relação (pessoal e empresarial) estabelecida com Jorge Mendes, com muitas vantagens mas com a desvantagem de estar muito dependente do superempresário. Uma dependência que se sente também na área da comunicação, na qual João Gabriel começa a substituir com exagero a figura do presidente, ao ponto de muita gente se questionar, para além das questões resultantes do dossiê GES/BES, quem é que, efectivamente, manda no Benfica. Um tema para o próprio Luís Filipe Vieira poder reflectir.

 

JARDIM DAS ESTRELAS

A meio da ponte…

O Benfica tem toda a legitimidade em reformular o seu projecto desportivo/financeiro e impor um fim à relação profissional com o treinador que mais lhe deu a ganhar nos últimos (longos) anos. O inverso também. Todavia, esta coisa de dúbia de ‘querer-mas não querer’ é que foi muito mal parturejada por Vieira & C.ª. Se queria acabar, acabava. Se queria continuar, fazia tudo para convencer a outra parte. E teve muito tempo para isso. Ficar a meio da ponte é que foi, claramente, muito mal jogado, com as consequências que se vêem. Quem deveria estar a questionar e a discutir, publicamente, as opções e os métodos, não deveria ser o bicampeão nacional, nem o clube que conseguiu os serviços do treinador bicampeão, mas o clube que vinha mantendo uma dinâmica de vitória e que, nos últimos dois anos, não ganhou nada de substancial. Não se discute nem o (curto) jejum, nem Lopetegui, nem o desgaste do ‘regime’ de Pinto da Costa. É nisto que os ‘clubes de Lisboa’, tão ciosos das suas rivalidades, mais parecem clubes regionais.

 

O CACTO

Falta de nível!

Seria importante que, na Comunicação Social, apesar das questões concorrenciais, não houvesse apropriação indevida da autoria em primeira mão das notícias, como aconteceu no caso do não pagamento do ordenado de Jesus, relativo ao mês de Junho. Porque se esse princípio não for respeitado, naquilo que é um atropelamento à verdade e um abuso no sentido de se tentar retirar méritos que não se têm, aqueles que estão sempre a atirar pedras aos jornalistas e à Comunicação Social ficam numa posição fortalecida, perante uma classe e uma actividade que são pilares essenciais no funcionamento das democracias. Pior ou tão grave quanto esse abuso foi a imagem projectada, esta semana, pelo director de comunicação do Benfica e pelo presidente do Sporting. Tudo junto, uma única ideia: falta de nível!

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