Quem quer afinal dominar a Liga?
Pinto da Costa disse, recentemente, que “Fernando Gomes matou a Liga”. Não diria tanto. A Liga foi sendo morta, lentamente, por envenenamento, e Fernando Gomes percebeu muito a tempo que o poder iria estar na FPF. Não fez nada para encontrar um antídoto que provocasse o alívio da Liga. Fez como às vezes vemos nos filmes: viu o paciente a definhar e, em vez de lhe sair ao auxílio, longe dos olhares indiscretos – sem testemunhas – tapou-lhe a boca para acelerar o colapso. O “crime da almofada” (sem impressões digitais).
A passagem de Gomes pela Liga foi apenas uma “escala” por não haver “voo directo” para a FPF, uma vez que a pista de aterragem estava ocupada por Madaíl. As últimas alterações produzidas no regime jurídico das federações apontava para isso, mas o reforço do poder do presidente da Liga, entretanto promovido estatutariamente pelos clubes, foi surpreendido pela eleição de Mário Figueiredo, um “outsider” que beneficiou da desatenção (momentânea) dos situacionistas, que acharam não ter nada de relevante para fazer e porque a “situação” se encarregaria de colocar, por osmose, António Laranjo no poder e ser ele a extensão que a FPF preconizava. As contas saíram completamente furadas e esta mais recente revisão do regime jurídico das federações é um travão ao “mau comportamento” (a expressão é minha) da(s) Liga(s) e mais um reforço do poder federativo.
No caso do futebol, a avocação das competências da Liga pela FPF passa a ser um mecanismo automático e, como dizer?, menos doloroso, em caso de litígio. Quer dizer: o presidente da Liga perde parte importante da sua autonomia, e, assim, a coberto de supostas irregularidades ou ilícitos, evitam-se situações de rebeldia institucional, como a que o actual presidente da Liga protagoniza, mesmo que isso corresponda ao cumprimento do seu programa eleitoral, como manifestamente ninguém reparou ou quis dar crédito.
É evidente que Mário Figueiredo arriscou demasiadamente. Não foi o “kamikaze” que por ora parece ser, mas andou lá perto, porque ninguém desafia um poder que se havia instalado há muitos anos no futebol português e criara, no seu tecido, raízes muito profundas, sem estar preparado para resistir às consequências. Não tenho dúvidas: Mário Figueiredo embarcou na sua casca de noz, fazendo-se ao caminho com dois remos, as suas únicas armas para enfrentar um mar alteroso, perigoso e propício ao encontro com piratas e, a certa altura, deu conta de um poderoso porta-aviões, habituado às grandes vagas e preparado e equipado (com dinheiros europeus) para pôr cobro a qualquer... agitação marítima. É fácil de perceber que os clubes mais pequenos (e os menos pequenos), numa luta pela sobrevivência, estavam cansados da tutela opressora do clássico detentor dos direitos televisivos e da sua perda de autonomia e independência, mas precisavam do dinheiro resultante desses direitos televisivos, a sua principal e quase única receita para fazer face às despesas. É a mesma coisa do que estar dentro de uma prisão – a prisão do medo – e ao mesmo tempo poder desfrutar de uma refeição diária sobre a mesa e mais umas mordomias, ia a dizer... “dinheiro para o tabaco”.
Fernando Gomes teve sempre o apoio do clássico detentor dos direitos televisivos e Mário Figueiredo esteve sempre contra ele, por achar que, apesar do apelo à sobrevivência, o bolo poderia ser mais generoso e partido em fatias mais abundantes. Ora, se estamos a falar de um poder prevalecente, fautor de muitos desequilíbrios, e se a esse poder se ligaram importantes forças associativas – até forças de Estado... –, era natural que a fricção... desse choque.
O choque aí está, brutal e, ao que parece, insanável. Fernando Gomes e Mário Figueiredo não estão no mesmo barco e diz-se à boca pequena que o presidente da FPF vem preparando uma “saída limpa” para a UEFA, assim a modos como (em 2004) Durão Barroso abandonou o país para iniciar funções como presidente da Comissão Europeia. Há muita coisa que se joga, neste momento, no tabuleiro dos bastidores do futebol. A perda do campeonato pelo FC Porto, as conquistas do Benfica (gestão dos direitos televisivos + título de campeão nacional) e um novo posicionamento institucional do Sporting estão a provocar incómodo(s). Há um clima de “assalto ao poder” em marcha e muitas figuras à procura do melhor posicionamento. Seguem-se as cenas dos próximos capítulos.
Nota: Perante orçamentos tão altos, justifica-se que Mourinho jogue em Madrid como o Olhanense no Estádio da Luz?
O CACTO
50 de Abril!
Comecei a escrever sobre futebol vinte meses depois do 25 de Abril e aprendi muito do que sei com uma plêiade de jornalistas que tiveram de lidar com a censura e driblá-la com inteligência e coragem. O meu respeito por esses Homens dura para sempre. Eles trabalharam em condições muito adversas e fizeram da palavra uma arma. E, nos primeiros anos de democracia, utilizaram o verbo para prestigiar não apenas a língua portuguesa mas também a liberdade. A liberdade do pensamento. A liberdade da escolha. O futebol tem um lado de alienação que compraz. O Estado Novo usou e abusou dessa instrumentalização.
Mas, volvidos 40 anos sobre a Revolução dos Cravos, que pôs em causa a figura da “posição (de abuso) dominante”, subjaz a ideia de uma democracia incompleta, pouco madura e tolerante perante novos desafios e novas ideias. É assim na política e é assim no futebol. Mas se na política as ideias circulam e se debatem, no futebol torna-se muito difícil instituir um regime de debate e tolerância, a fazer com que as estruturas evoluam e haja alternância no poder. Estão passados 40 anos sobre o 25 de Abril, mas o futebol – porque não assimilou o espírito do “25” – precisa agora de um... 50 de Abril! A “corporação” também precisa de se libertar dos tiques ditatoriais.
