Quem tem medo de Jorge Jesus?
Está relançada a discussão em torno da importância de um treinador numa equipa de futebol. E isso acontece não apenas no FC Porto, mas também no Benfica (com Jesus) e no Sporting (com Jardim). Interessante: apesar de Jesus e Jardim terem mais um ano de contrato, ninguém consegue assegurar que sejam os treinadores das respectivas equipas na próxima época. E este final de temporada promete muito em termos de compromisso(s).
Ocaso do Benfica é mais complexo, porque Jesus vai conquistar este fim-de-semana o segundo título de campeão, desde que há cinco anos chegou a Luz, e está longe de ser um técnico que reúna consenso entre os benfiquistas: amado por uns e odiado por outros, agora é Jesus que, muito legitimamente, quer ver como as modas passam. Até agora, Luís Filipe Vieira nunca se deixou bater por aqueles – e são muitos – a perfilhar a ideia de que, com os recursos colocados à disposição, Jesus já poderia ter feito muito mais e, por isso, mereceria ser crucificado. Discordo em absoluto. Posso não me identificar com o tipo de postura e com um conjunto de incidentes e declarações que já protagonizou desde que rumou à Luz – e sinalizei-os todos! –, mas consigo alcançar a importância que Jorge Jesus teve na redefinição de uma “atitude competitiva” (profissionalmente séria) compatível com as ambições de um clube como o Benfica.
Ébom não esquecer o que era o futebol do Benfica “a. J” (antes de Jesus). Era um arremedo de indefinições a provocar choque entre as dúvidas à volta da melhor estrutura para proteger a cabina e as opções tomadas no âmbito das aquisições. Cada qual à sua maneira, José Veiga, Rui Costa, Koeman, Fernando Santos, Camacho e Quique Flores viveram esses “dramas”.
Se Mourinho em 2002 começou a resolver um problema bicudo no FC Porto, Jesus, em circunstâncias diferentes, começou a resolver no Benfica um problema que mais nenhum outro treinador, à excepção de Trapattoni, conseguiu solucionar, no pós-Toni, em 16 épocas!
Ébom não esquecer que, em todos estes anos, e já com Vieira na presidência, o próprio “vieirismo” flutuou entre o semipresidencialismo e o presidencialismo puro. Parece evidente que, depois das experiências com Rui Costa e José Veiga, foi Jesus quem permitiu a Luís Filipe Vieira regressar ao regime do presidencialismo puro, numa linha aberta e directa com o (seu) treinador.
Neste momento, o Benfica precisa mais de Jesus do que Jesus do Benfica. E se Jesus conquistar a Liga Europa, depois de bater a Juventus, as preocupações de Vieira vão adensar-se. Porque se Jesus vencer a Liga Europa, após ter sido finalista vencido há um ano frente ao Chelsea, as atenções vão concentrar-se no treinador do Benfica e a Jorge Mendes poderá estar reservado um papel decisivo, nesta matéria...
Há uma tendência evolutiva no futebol do Benfica. Vieira evoluiu, Jesus evoluiu, o clube percebeu (a tempo?) que era preciso investir na formação e Jesus garante, na equipa principal, um grau de competitividade absolutamente vital para o Benfica poder andar na carruagem da frente. Em caso de confluência de interesses, Vieira só tem de assegurar a blindagem do balneário à medida das características de Jorge Jesus. Ninguém fará mudar Jorge Jesus a não ser... ele próprio. Esqueçam. A “reeducação” de Jorge Jesus é tempo perdido. Foi essa a lição de Londres. Nem Rui Costa, nem Shéu, nem, antes... Carraça. Ninguém. Queriam um Jesus “bacteriologicamente puro”? Seria bom, pois... Queriam multá-lo? Ui, ui... Este medo que infunde Jesus é uma moeda com as mesmas duas caras... Não vale a pena... A menos que se queira correr o risco de perder um dos treinadores que melhor treina e prepara os jogadores para a (alta) competição.
Ocaso do Sporting é mais simples, embora com um denominador comum: o Sporting, nesta fase, precisa mais de Jardim do que Jardim do Sporting. E, nesse sentido, Bruno de Carvalho vai ter de utilizar todo o seu poder negocial para convencer Leonardo a ficar e a dar corpo a um projecto que ainda está a gatinhar e precisa de sustentação. Nada melhor do que “não mexer em equipa que ganha” e reforçar o plantel... numa época de Champions. Bruno de Carvalho arriscou-se ao declarar, antes de falar com Jardim, que o Sporting vai entrar na próxima época com o objectivo de ser campeão. Leonardo só entrará nesta “viagem” se perceber que tem condições para isso. E se achar que não tem?...
Na última vez que o FC Porto protagonizou uma crise mais problemática, Pinto da Costa teve “golpe de asa” e foi buscar Mourinho à U. Leiria para substituir Octávio. Com essa “jogada de mestre” recolocou o FC Porto na senda do êxito e ofereceu a si próprio um novo fôlego de liderança. O FC Porto volta a precisar de um treinador emblemático.
JARDIM DAS ESTRELAS
Oui, Platini
“Árbitros estrangeiros podem ser uma boa solução!” – afirmou Platini, em oportuna entrevista a Record, na qual o presidente da UEFA tentou corrigir a “má impressão” que os portugueses têm dele. Saliento aquela declaração, porque defendo há muito essa possibilidade, principalmente depois de conhecer a ineficácia do Apito Dourado e por entender que, em Portugal, para certos jogos, os árbitros portugueses não têm condições para realizar arbitragens à margem de todas as pressões a que estão sujeitos, como agora se viu no Benfica-FC Porto, com Pedro Proença. O Sporting (bem) relançou o tema e Platini vem agora dizer que, sim senhor, lhe parece uma saída possível... Conclusão? Os responsáveis pela arbitragem portuguesa já podem recorrer a esse tipo de nomeações.
Outro ponto a favor de Platini: a visão que tem sobre os fundos de investimento, tocando na ferida (um dos meus “cavalos de batalha”): “Não são as mesmas pessoas que estão nos clubes e nos fundos”? Chapeau!
No que não estamos de acordo é na visão retrógrada em relação à utilização das novas tecnologias. Não está em causa discutir, tecnologicamente, todos os lances de um jogo. É um argumento falacioso para tudo ficar na mesma. Haverá muito menos erros de arbitragem e atropelo à verdade desportiva quando for institucionalizada a figura do vídeo-árbitro.
