Reis da pré-época
Durante toda esta semana o que mais se falou foi dos capitães e do futebol praticado pelos três grandes. Os meus amigos sportinguistas, depois do torneio ganho na África do Sul, estão tranquilos - nem elogios nem críticas. Por sua vez, a frase que mais ouvi dos meus amigos benfiquistas e portistas foi "não estamos a jogar nada". A todos eles contei o meu verão louco de 1988. Para os mais críticos e pessimistas como o meu melhor amigo César (que é considerado por muitos o benfiquista mais fanático do Montijo) tive de contar esta história várias vezes durante os últimos dias. Aquela pré-época de 1988/89 foi desde o primeiro dia algo surreal. Era a minha segunda época em Espanha, tinha 22 anos e o presidente mais polémico da história do futebol, Jesus Gil y Gil, disse-me que o novo capitão do Atlético Madrid ia ser eu. Fiquei paralisado vários segundos quando ouvi aquela frase. Naquele momento tremi e só lhe pedi para que mudasse de ideias: "Por favor não me faça isto, você quer matar-me? Eu não estou preparado para assumir o que me está pedir." E tinha razão, era o mais jovem do plantel e nele havia vários internacionais espanhóis e até mesmo titulares da seleção, como Goikoetxea e Tomás. Para acrescentar a isto, dos 23 espanhóis do plantel, metade eram jogadores feitos no Atlético, com muitos anos dentro do clube. E, apesar de me dar bem com todos eles, era praticamente impossível que a maioria aceitasse que um miúdo de 22 anos, português, fosse o capitão deles. Era uma situação anormal em todos os sentidos, mas por muito que lhe tivesse suplicado não houve marcha-atrás na decisão. "El português será el capitán del equipo", disse ele a todos no dia seguinte numa reunião no balneário. Como costumo dizer: grande caldeirada que tinha pela frente. Mas, um mês e meio depois daquele dia, inha o balneário na mão.
Meses antes o campeão do Mundo César Luís Menotti tinha sido despedido. O nosso novo treinador era o basco José Maria Magureri e, depois do trabalho duro na montanha, começaram o jogos amigáveis com vitórias e grandes exibições. O futebol que praticávamos era de alto nível. Ofensivamente éramos uma equipa brutal e ganhávamos quase sempre por goleada. Recordo-me que no torneio Teresa Herrera, na Corunha, vencemos o Liverpool por 5-1. Até os nossos grandes rivais Real Madrid e Barcelona nos elogiavam. Todos diziam que nós estávamos muitos níveis acima de qualquer outra equipa. Sem dúvida alguma que fomos os reis da pré-época.
Mas chegou o início do campeonato e começou o pesadelo... Primeiras quatro jornadas: três derrotas e um empate. Éramos últimos do campeonato. Fisicamente não podíamos nem andar. Passámos de bestiais a bestas em poucas semanas e, como se não fosse pouco, veio a Europa. Contra todos os prognósticos (já que éramos os grandes favoritos) fomos eliminados pelo Groningen e o resultado foi o habitual: treinador para rua.
Em princípios de outubro, estávamos fora da Europa, do campeonato e sem treinador. Era um caos total. Não podíamos nem sair à rua. A confusão era tanta que decidimos que o único que falava com a imprensa seria o capitão. Os rumores eram terríveis e quase todos os dias fazia conferências de imprensa a desmenti-los e a dar a cara pelos meus companheiros. Além do mais, tentava sempre passar uma mensagem positiva aos adeptos, que se sentiam humilhados e com vergonha de nós. As conferências de imprensa era um pesadelo. Os jornalistas faziam perguntas para fazer sangue, eu era um alvo fácil para os mais cruéis. Um deles era o Aguilera, da rádio Ser ou Cope. Violentíssimo. Um dia chegou mesmo a conseguir que me viessem as lágrimas aos olhos e tive de meter óculos escuros para disfarçar. Muitos dos meus colegas passaram a tratar-me por "capi" (um diminutivo de capitão) mas foi sem dúvida um dos piores momentos que vivi em toda a minha carreira profissional.
Depois daquele verão de 1988, os resultados passaram para segundo plano na pré-época. O importante era a equipa ficar bem fisicamente e estar afinada para quando chegassem os jogos a doer. Este foi único título que nunca mais quis ganhar, o de "reis da pré-época".
Ser capitão de um grande clube é uma grande responsabilidade mas também um orgulho enorme. Hoje este debate dos capitães acontece nos três grandes. No Sporting, por motivos estratégicos, o Rui Patrício vai ceder a braçadeira ao Adrien, mas continuará a ser o líder do balneário, será o capitão sem braçadeira. No Benfica, o grande capitão é o Luisão e neste caso a luta está nos subcapitães. Diz-se que um pode ser o Samaris, o que seria algo "anormal". Se, com um ano de águia ao peito, conseguir ser um dos líderes, isso significa que o grego tem um grande caráter. Já no FC Porto está tudo em aberto, até o Casillas, que acaba de chegar, poderá ser o capitão.
GRANDE CALDEIRADA
Ditador Franco
Na apresentação no Real Jaén, o português Nuno Silva foi para a conferência de imprensa com uma t-shirt que tinha como imagem o antigo ditador espanhol Franco. Foi um escândalo. É incrível como ninguém do clube o avisou antecipadamente, pois este não tem obrigação de saber a história de Espanha, ainda para mais quando o ditador morreu muitos anos antes de ele nascer. Por outro lado, o ponta-de-lança é já uma estrela do marketing, fazendo a publicidade à nova campanha de sócios que dá direito a uma camisola... do clube!
NÓS LÁ FORA
Jesualdo campeão!
Na passada terça-feira, o míster Jesualdo Ferreira levou o Zamalek à conquista do campeonato egípcio, depois de ver o rival Al Ahly empatar em casa do Smouah. Mais um treinador português campeão, a juntar-se a Jorge Jesus, José Mourinho, Vítor Pereira, André Villas-Boas, Paulo Sousa e Pedro Caixinha! Muitos parabéns míster!
DO MEU ÁLBUM
Apresentação do Sporting
Ontem o Sporting apresentou-se aos sócios no Estádio de Alvalade frente à Roma. A cada ano que isto acontece relembro sempre a minha estreia no mítico e antigo Estádio de Alvalade, em fevereiro de 1983, contra a Portuguesa dos Desportos. Tinha 16 anos. Um momento único, especial e que marcou o início da grande aventura que foi a minha carreira!
