Rir ou chorar?

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"JÁ?" – Na Tapadinha, em plenos anos 50, o árbitro deu início ao jogo e o FC Porto lançou-se ao ataque; Carlos Duarte, o famoso extremo-direito portista, levava a bola e foi carregado pelo lateral-esquerdo do Atlético, Valente Marques, que o atirou quase para as bancadas. Quando parou de rebolar e levantou a cabeça, Carlos Duarte perguntou ao seu adversário directo: "Já?" Valente Marques terá respondido, com o ar mais natural do Mundo, sem ponta de arrependimento, como quem não percebeu sequer a pergunta: "O jogo já começou!...." No Restelo o diálogo poderia repetir-se entre Marco Aurélio e Silva, quando o avançado do Boavista fez um "sprint" de doze segundos e marcou um golo, à custa da insustentável leveza de quem agiu como se o jogo, de facto, ainda não tivesse começado. Como se fosse proibido fazer golo tão cedo.

LEGITIMIDADE – O jogo do Restelo, aliás, é um bom ponto de reflexão. O campeão veio a Lisboa para ganhar, cumprindo de resto a profecia de Jaime Pacheco, feita nas vésperas do jogo, segundo a qual podia até acontecer que fosse o Belenenses a praticar melhor futebol e o Boavista a vencer. Tudo se passou, de facto, como o treinador axadrezado previu: ultrapassou mais um obstáculo difícill, levou para o Bessa os três pontos que lhe davam jeito e mantém--se na luta pelo primeiro lugar. O problema não está na discutível, mas aceitável, desvalorização da estética na actuação da sua equipa. A questão é outra: se o campeão nacional, no terreno do oitavo classificado, se comporta daquela maneira e sai feliz só porque venceu, Jaime Pacheco deixou de ter legitimidade para criticar adversários mais modestos que, de visita ao terreno do senhor campeão, diz ele, praticam antijogo.

ANEDOTAS – Num dos mais negros fins-de-semana de que há memória, o ridículo de algumas decisões dos árbitros levam os adeptos a não saber se hão-de rir ou chorar. Rir pela anedota das figuras dos internacionais que estiveram em Alverca, Leiria e Restelo? Ou chorar porque o futebol não pode ser tratado daquela maneira? Em causa está um "penalty" absolutamente patético em Alverca, fruto de uma alucinação de quem apita a sorrir – cuidado, porque pode ser trágico pensar que somos o centro do Mundo; está uma lista interminável de disparates, em Leiria, entre indecisões, expulsões, um "penalty" e toda uma encenação lamentável – cuidado, pode ser um perigo pensar que estas coisas cá da terra já são muito pequenas para tanta grandeza internacional; e está, no Restelo, em absoluto, uma das maiores demonstrações de negligência dadas por um árbitro nos últimos tempos.

INCOMPETÊNCIA – No Belenenses-Boavista foi tudo mau de mais, tendo como face visível do desvario o "penalty" não assinalado a Jorge Silva por falta sobre Marcão. Mas toda a condução do jogo foi uma desgraça. Numa partida com mais de sessenta faltas, expulsar um jogador só porque rematou a bola depois do senhor apitar (e toma lá um cartão amarelo) e mais tarde porque caiu na sequência de carga ilegal sofrida na área (e toma lá o segundo, porque o senhor achou que o malandro, que sofreu falta, o quis enganar) é um crime. O problema, de uma forma geral, não pode partir, porque não há razões para isso, de suspeições à idoneidade de gente séria: são apenas casos de má avaliação grosseira. Ou de incompetência pura e simples, que as despenalizações, a meio da semana, não rectificam na totalidade.

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