Rodrigo foi chave da glória
1 O grande talento costuma expressar-se pelo engano, pela forma tantas vezes genial de surpreender o Mundo com soluções personalizadas e fora do guião. Rodrigo tem capacidade para ser ilusionista e acrescenta-lhe a perfeição com que executa o senso comum. Poucos são capazes de cumprir o excecional, tendo a arte de falar verdade quando já não é possível alimentar a mentira por mais tempo – o momento do tiro fatal acima de todos. Rodrigo serve para tudo: para o jogo direto e de progressão participada; para tomar decisões contundentes em espaços curtos (técnica apurada) e em campo aberto (excelente coordenação motora em alta velocidade); para ser um perigo público mais próximo ou mais distante da grande área. A potência e pontaria do seu pé esquerdo são extraordinárias.
2 Pertence à estirpe daqueles a quem a Natureza concedeu o dom de ser criativo com regularidade. Na constante aventura de inventar, tem saída para todas as dificuldades que lhe são criadas e encontra sempre uma solução à medida do talento superior que possui. Não se distrai e nunca se perde no meio campo adversário, por esses terrenos militarizados onde é preciso coragem para correr riscos e confiança para dar uso a todo o arsenal técnico e físico. Jorge Valdano diz que só a fantasia causa tanta mossa como uma boa mudança de velocidade. Ele tem as duas coisas. Para lá do carisma com que seduz toda a gente, incluindo defesas e guarda-redes inimigos.
3 Sem ser obsessivo pelo último toque – por norma recusa o egoísmo –, é um atacante com poder de síntese notável, conhecedor de muitos atalhos que levam ao golo. Raramente se engana, quaisquer que sejam os caminhos utilizados até ao destino final. Para esse estilo abrangente contribuem muitas e diversificadas armas, que domina sem constrangimento: sabe jogar de costas e de frente; é perigoso quando descai para os flancos ou recua no terreno; pressiona com firmeza e inteligência, pelo que interrompe a saída, imobiliza o adversário ou provoca-lhe erros fatais; conhece as regras de todas as zonas do campo e está sempre disponível para receber a bola. Porque tudo desagua nas imediações da baliza, à chegada encara, desmarca-se, insiste, tabela, remata e, basta fazer as contas, marca cada vez mais. Está transformado numa fera.
4 Rodrigo foi a chave mestra da glória inacabada da águia e o mote para muitas das nuances táticas introduzidas por Jorge Jesus que permitiram ao Benfica levar a cabo uma época excecional. Neste campeão assente na versatilidade com que domina todos os elementos ideológicos e estratégicos do futebol que pratica, foi a peça perfeita para equilibrar o jogo e, ao mesmo tempo, dar-lhe mais profundidade e acutilância. Apesar de não ser finalizador nato, é jogador de todo o espaço ofensivo, que reflete um espírito temível, assente na obstinação que o orienta em todas as situações junto à área. O tempo está a apetrechá-lo com argumentos de estrela universal: promove a inteligência e dá cada vez mais satisfações à estatística; impressiona por orgulho e comove por generosidade; gera emoções e cumpre os requisitos de eficácia. Não tarda será uma referência mundial absoluta.
Oblak contraria todas as regras
Diz-se que o guarda-redes só atinge o máximo à medida que se aproxima dos 30 anos
Oblak confirma a ideia, porque o tempo terá papel a desempenhar na sua construção como enorme guarda-redes. A questão é que, aos 21 anos, idade que o deixa mais próximo da adolescência do que propriamente da maturidade, é muito melhor do que o comum dos mortais. Se para alguns a final de Turim é só um momento solene das carreiras, para o esloveno é o ponto mais alto de um percurso que ainda só está no início. O esloveno é um miúdo, mas a confiança nele é total. É para isto que servem os fenómenos: para contrariar todas as regras.
Sala de máquinas será portuguesa
O Benfica jogará a final da Liga Europa com dois jogadores portugueses na sala de máquinas
Ruben Amorim e André Gomes desempenharão a tarefa que, se o Mundo fosse perfeito para os encarnados, seria de Fejsa e Enzo Pérez. No papel a diferença é grande, na ação pode notar-se menos ou, na melhor das hipóteses, nem se notar. Que Ruben renda Fejsa não parece caso para grandes preocupações. Já a ausência de Enzo pode ser mais contingente. André Gomes vai precisar de acrescentar intensidade (está a fazê-lo cada vez melhor) às imensas qualidades técnicas e táticas que possui. A chave da felicidade benfiquista passa muito pelo grau de acerto que os médios-centro revelarem.
Soluções perdidas no flanco direito
O Benfica 2013/14 racionalizou o poder de fogo: é a equipa menos goleadora de Jorge Jesus
Sem Markovic e Salvio, o Benfica perde soluções do meio-campo para a frente, o que constitui mais um problema para quem já entra amputado da peça fundamental que é Enzo Pérez. Os dois, que têm sido um bom problema para o treinador encarnado (a época chega ao fim sem se perceber quem está melhor), tornaram-se num caso de difícil resolução. Qualquer que seja a alternativa para o flanco direito, terá de manter as habituais rotinas de quem primou, em toda a época, por diversificar o plano de ataque. Velocidade, acutilância, profundidade e jogo interior são elementos imprescindíveis.
