Ronaldo: embaixador de luxo
Nunca fui um entusiasta da mudança de Ronaldo de Manchester para Madrid. Desportiva e socialmente continuo a ter dúvidas em relação à forma como o madeirense vai encaixar num clube que gosta muito de nomes sonantes, mas que se recusa a entender que contar com bons valores individuais não significa, por si só, possuir uma grande equipa. Esta coisa de juntar galácticos provoca um grande alarido, mas não assegura títulos. E os madrilenos, com Florentino Pérez à cabeça, devem lembrar-se bem disso.
Mas, independentemente das minhas reticências em relação à mudança de ares, tenho de dizer que compreendo o desejo de Ronaldo em ir para a capital espanhola. Mais do que pretender sair de Inglaterra e de um clube onde tudo ganhou (individual e colectivamente), o madeirense tinha por objectivo cumprir um sonho de criança. E isso, claro está, tem muita força.
Já se sabia que a chegada de Ronaldo a Madrid ia ser apoteótica. Afinal de contas, estamos a falar do melhor futebolista da actualidade em título. E até o "namoro" poder converter-se em "casamento" passaram longos meses, com muitos avanços e recuos que transformaram esta transferência numa autêntica "novela".
Mas se era fácil adivinhar que o Bernabéu ia estar animado no momento da apresentação, jamais acreditei que se assistisse a um espectáculo tão imponente. Mais de 80 mil pessoas deslocaram-se, em período de férias, a um dos míticos palcos do futebol mundial para ver o internacional português de perto, para escutar meia dúzia de frases de ocasião (mas visivelmente sentidas). Para trás ficou o recorde que pertencia a Maradona e ao Nápoles. Na altura, o argentino levou 75 mil seguidores ao San Paolo no seu primeiro dia em solo transalpino.
A histeria que o astro sul-americano provocou em Nápoles não surpreendeu. Tratava-se de uma aquisição sensacional de um clube sem historial de peso, sediado numa das zonas mais carenciadas de Itália e que, até então, sempre fora notícia pelas razões erradas. Mas em Madrid é tudo diferente. Só nos últimos tempos, os adeptos do clube mundial do século XX deliciaram-se com futebolistas como Beckham, Figo, Roberto Carlos, Zidane, Ronaldo, Robinho, Van Nistelrooy, etc, etc... E já nem vou ao ponto de citar os nomes de algumas estrelas espanholas. Só nos estrangeiros, Madrid tem tido a oportunidade de acolher quase todos os gigantes. Mas, mesmo assim, com Ronaldo foi o que se viu.
Quando os governantes perdem tempo a tentar descobrir a melhor maneira de "vender" o nome de Portugal lá por fora, de forma a dar um empurrão fulcral para o turismo, Ronaldo consegue, em escassos minutos, colocar centenas de milhões de pessoas, espalhadas por todo o Mundo, a ouvir o nome do nosso país. Melhor: faz exibir a bandeira, a camisola da Selecção, obriga à enésima homenagem internacional a Eusébio e até ajuda a que os acordes do célebre "À minha maneira" dos Xutos & Pontapés corram o risco de virar moda em Espanha. E tudo isto sem marcar um único golo. É obra!
Espero que a aposta de Ronaldo dê mesmo certo. E se não conseguir ser melhor em Madrid do que foi em Manchester, já será sensacional se lograr ter o mesmo rendimento. Portugal e os portugueses terão muito a ganhar com isso. E não falo apenas da vertente desportiva. Por exemplo, começar a vender pacotes de viagens aos adeptos madrilenos para irem à Madeira conhecer a terra de Cristiano seria uma grande jogada para a TAP e para toda a indústria hoteleira da Pérola do Atlântico. É fácil perceber que o nome Ronaldo, nos tempos mais próximos, servirá para vender tudo e mais alguma coisa em Espanha. Agora, resta saber quem, e como, irá saber aproveitar o caminho que o embaixador Cristiano desbravou.
