Ronaldo não será o mesmo

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Ronaldo não será o mesmo
Ronaldo não será o mesmo

CR7 está limitado desde o início de abril. É o primeiro sinal de que dificilmente voltará a fazer todos os minutos de todos os jogos de uma época inteira. O Mundo reza para que seja eterno mas, nestas alturas, Deus só ouve e regista o pedido. Porque nem Ele tem poderes para concedê-lo.

1. Desde que atingiu o topo do futebol, Cristiano Ronaldo tornou-se mais do que um jogador. Os treinadores que teve até ao momento são unânimes em reconhecer o efeito nocivo das propostas para descansar em duelos com adversários de escalões inferiores ou quando lhe sugeriam que jogasse meia parte, uma hora ou 30 minutos de jogos menos importantes. Quando dava conta dessas intenções, encolhia os ombros, fazia cara de mau, remoía duas ou três frases num tom mais agressivo e os líderes cediam: davam-lhe a titularidade e mantinham-no em campo até ao fim, porque importante mesmo era terem o génio feliz. CR7 é um animal competitivo que há muito assumiu luta contra os seus próprios limites. É esse combate que vai ter de abrandar até porque, no fim, os limites levam sempre a melhor.

2. Na final da Champions, CR7 aguentou duas horas, nunca se escondeu ou limitou e manteve-se focado no jogo; mas faltaram elementos de um reportório com menos potência, agilidade, velocidade prolongada e disponibilidade física. Digamos que, salvando a integridade como um dos maiores da história, não fez rebentar todas as previsões de tempo e distância; não foi o homem-bomba para quem o perto e o longe são conceitos relativos na medida em que, sendo um mero avançado quando recebe a bola, evolui para o TGV quando embala e leva tudo à frente. Nem conseguiu ser o atirador sumptuoso que, a 20 ou 30 metros do alvo, abrevia caminho com mísseis teleguiados que fazem abanar a rede com a mesma naturalidade de um toque à boca da baliza.

3. A misteriosa lesão que o diminui desde o início de abril e o limitou com o At. Madrid, na Luz, é a primeira fraqueza do género em toda a carreira, sinal de que nem os extraterrestres escapam à lei implacável do tempo – caminha para os 30 anos. A partir de agora, dificilmente será como sempre o conhecemos (demoníaco, deslumbrante, influente, regular e eficaz), porque chegou a hora de racionalizar o que, até aqui, foi fenómeno para lá da ciência. CR7 constitui um terramoto na história do futebol, um imenso tsunami que varreu estádios, levantou bancadas, bateu recordes, criou amores e desamores universais... No futuro, mesmo sem a grandiloquência habitual, tem ainda para nos dar o fogo de artifício magistral de raides sumptuosos, tiros magistrais e números que vão continuar impressionantes. Mas não será o mesmo.

4. CR7 não acaba aqui. Tem ainda centenas de jogos e golos para fazer, títulos para preencher o currículo, talvez mais uma ou duas Bolas de Ouro para ganhar. Mas não poderá fazer, sem quebras de eficácia, todos os minutos de todos os jogos de uma época inteira; nem passar hora e meia como único protagonista de épicas aventuras em forma de explosões por todo o terreno, como se de cada batalha dependesse a vida dos seus. Ronaldo está agora obrigado a aprender o significado de conceitos inexistentes na cartilha que seguiu até chegar ao céu onde se acomodou: prudência, poupança, gestão, cuidado, bom senso... Pelo sim, pelo não, o Mundo reza para que seja eterno. Nestas alturas, porém, Deus só se compromete com o registo do pedido. Porque nem Ele tem poderes para concedê-lo.

Tiago de fora é dor de alma

Tiago utilizou o palco mais ilustre do futebol europeu para mostrar que é uma peça decisiva no extraordinário Atlético Madrid de Diego Simeone. O campeão de Espanha é uma equipa de máxima voltagem, que tritura os adversários como se fosse um exército e os golpeia com armas futebolísticas. Tiago é o príncipe de uma classe operária feliz. É ele quem introduz pausa, interceta linhas de passe e dá inteligência à manobra global. Aos 33 anos, chega ao fim da temporada como um dos melhores médios europeus. É uma dor de alma vê-lo fora do Mundial.

Um justo prémio para Coentrão

O português cometeu feito extraordinário: partindo de uma situação desfavorável (no início da época a saída de Madrid esteve por um fio), condicionado na avaliação pelo elevado preço do seu passe (30 milhões) e sob o estigma de ter sido contratado por um treinador maldito para as elites do Bernabéu (José Mourinho), Fábio convenceu Ancelotti de que, na fase conclusiva da época, deveria ser ele o titular do campeão europeu – ter Marcelo como suplente é luxo ao alcance de muito poucos. Uma vitória tremenda e um justo prémio para quem tanto lutou e sofreu para chegar ao topo.

O amadorismo no caso Diego

A história da medicina empurrava para o catálogo dos milagres que o jogador estivesse apto após problema muscular tão recente; Simeone pode ter desconfiado, mas acreditou no futebolista; Diego, correndo todos os riscos, jurou a pés juntos que estava bem. Há vários mistérios à volta da situação, o maior dos quais o papel do departamento médico do clube. Mas não é só: a evidência da limitação física do jogador foi tão clara ao fim de cinco minutos de jogo que custa entender como enganou toda a gente (incluindo a ele próprio) nos treinos antecedentes. Pareceu coisa de amadores.

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