RTP, tropa e Jamor

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RTP, tropa e Jamor
RTP, tropa e Jamor

Esta semana de Taça de Portugal trouxe-me muitas recordações. Lembrei-me dos jogos que fiz pelo Porto e pelo Benfica. No Porto, infelizmente, nunca ganhei uma final da Taça. Com o Benfica foi diferente: na época 1992/93, fiz o jogo mais completo da minha vida no Jamor frente ao Boavista. Ganhámos 5-2. Foi uma tarde perfeita. Mas a minha história no Benfica começa bem antes. Com muita polémica.

Fui apresentado aos sócios no Estádio da Luz também antes de um clássico entre o Benfica e o Porto. Alguns dias depois, na primeira folga que tive, fui até à minha casa de férias no Algarve. Estava a jantar e a ver o telejornal quando é anunciado que o primeiro-ministro Cavaco Silva iria fazer uma comunicação ao país logo a seguir. Ao estilo das mensagens de Natal e Ano Novo. Fiquei curioso para ver o que era. E nunca imaginei que pudesse ter alguma coisa a ver comigo. “Portugueses, boa-noite. Estou aqui para informar que todo o conselho de administração da RTP está demitido em função do processo de transferência de Paulo Futre para o Benfica”. Mais ou menos isto. Não me lembro das palavras exatas, mas ainda hoje consigo recordar-me daquilo que senti na altura: choque, espanto e algum receio. Num momento, estou a jantar tranquilo. No outro, ouço o meu nome envolvido num escândalo governamental. Rebentou a bomba!

Eis o que se passou: o dinheiro que o Benfica utilizou para pagar ao Atlético Madrid foi adiantado pela RTP. Os encarnados usaram o contrato dos direitos de transmissão dos jogos para pedirem verbas antecipadas à estação pública, de modo a poderem contratar-me. E, pelos vistos, o conselho de administração da RTP não tinha legitimidade para tomar essa decisão. Por isso, teve de sair em bloco. Uma loucura. Só soube da origem do dinheiro nessa altura. Normalmente é assim. Os jogadores não fazem a mínima ideia onde os clubes arranjam as verbas para negociarem entre si. São completamente excluídos desse processo. Não tinha qualquer responsabilidade, mas vi o meu nome envolvido numa enorme confusão passados poucos dias de regressar a Portugal. E não acabava aqui.

Antes de assinar pelo Benfica, tive tudo acertado com Sousa Cintra para jogar no Sporting. Nessa altura, disse-lhe que podia ter um problema com a tropa se regressasse a Portugal. Quando saí do Porto para o Atlético Madrid, o Presidente da República, Mário Soares, tinha-me concedido um adiamento de oito anos. Mas era apenas válido se estivesse no estrangeiro. Caso regressasse ao país, esse adiamento perdia efeito. Expliquei isto a Sousa Cintra, mas ele disse-me para eu não me preocupar porque tinha contactos no Exército e conseguia resolver a situação. Fiquei descansado. Mas enganei-me.

No dia em que tínhamos de ir fechar tudo com o Atlético Madrid, e com o presidente Jesús Gil y Gil, Sousa Cintra não apareceu e deixou-me pendurado no aeroporto. Ainda hoje, depois de todos estes anos, não sei qual a razão que o levou a fazer marcha-atrás. E foi depois disto que veio a possibilidade de ir para o Benfica. Passado um mês de já estar no meu novo clube, a Polícia Militar apareceu na minha casa: “Em setembro tens de ir para a tropa”. Caiu-me tudo. Voltava o pânico da tropa. Algo que tinha começado quando eu ainda era jogador do Porto e que me perseguiu durante mais de uma década.

Depois de Sousa Cintra me deixar pendurado, depois do escândalo da RTP, depois de já estar finalmente a jogar pelo Benfica… Parecia que estava tudo a ficar mais calmo. E lá volta a Polícia Militar. E a certeza de que se continuasse em Portugal, teria de ir para a tropa. Desta vez não escapava. Mas quando acabou a época, fui para o Marselha em junho e o adiamento voltou a ser válido.

Aminha aventura no Benfica começou com todas estas polémicas, mas acabou em beleza. Com aquela tarde mágica em que vencemos o Boavista no Jamor. Marquei dois golos, fiz uma assistência e sofri uma grande penalidade. Não podia ser melhor. E ao recordar toda esta história também me lembrei do Boavista. Está de regresso à 1.ª Liga. É o lugar deste clube histórico, um dos maiores do nosso país. Desejo muitas felicidades ao João Loureiro, ao Álvaro Braga Júnior e ao Petit. São homens do futebol que merecem todo o sucesso do Mundo.

GRANDE CALDEIRADA

Messi insultado

O Barcelona perdeu a final da Taça do Rei frente ao Real Madrid na última quarta-feira e o impensável aconteceu. Na chegada à Catalunha, os adeptos não perdoaram ninguém. Até Messi foi insultado. Um escândalo. Como é possível criticarem Messi, depois de tudo o que já ganhou pelo clube, apenas por causa de uma semana má? O Barça foi eliminado da Champions pelo Atlético Madrid e perdeu a final da Copa frente ao Real. Mas isso não pode apagar tudo. É uma injustiça dos adeptos insultarem Messi. Tem sido o herói do Barça há vários anos e é um dos melhores jogadores de sempre da história do clube. Inacreditável!

NÓS LÁ FORA

Ilori está em grande

É um dos centrais mais promissores do futebol português. Começou a jogar ao mais alto nível apenas a meio da época passada, quando subiu à equipa principal do Sporting. Está com apenas 21 anos e já é titular do Granada, por empréstimo do Liverpool. Na jornada passada, foi um dos heróis na vitória frente ao Barcelona. Estou a falar do menino Tiago Ilori. Fiquei muito contente com a exibição dele e com a vitória do Granada. É a minha segunda equipa em Espanha, porque sou um grande amigo do presidente Quique Pina. Um campeão que tem feito muito pelo clube. E, com ele, o Tiago está em boas mãos.

DO MEU ÁLBUM

Uma noite para a história

Esta terça-feira, 40 anos depois, o mítico estádio Vicente Calderón (ou Don Vicentini, como gosto de lhe chamar) volta a receber uma meia-final da Champions. O meu Atlético Madrid contra o Chelsea. Vou ao estádio acompanhado pelos meus dois filhos e não podia falhar este jogo. Espero que seja uma noite mágica do Atlético Madrid. Naquele estádio, tive alguns jogos europeus inesquecíveis, como a vitória contra o Manchester United, nos oitavos da Taça das Taças, na época 1991/92. Mas nada que se possa comparar com o que aí vem. Vamos jogar o acesso a uma final da Champions. O Don Vicentini merece uma noite assim. E que seja mais uma noite para entrar na história.

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