Salvio sem jeito para truques

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Salvio sem jeito para truques
Salvio sem jeito para truques

1 Decorria o Mundial de 1958 quando o selecionador brasileiro, Vicente Feola, vendo um jogo da Suécia pela televisão, se deixou impressionar por Kurt Hamrin – caiu até na asneira de elogiá-lo em voz alta, dizendo que era preciso ter cuidado com ele. Nilton Santos, a Enciclopédia, que a FIFA considerou, em 2000, o melhor lateral-esquerdo da história, não se conteve e contrapôs irritado: "Não dá para entender. O senhor tem aí o Pelé e o Garrincha, que jogam mil vezes mais do que esse tipo, e deixa-os sempre no banco." Até hoje, são raros os treinadores que ultrapassaram o desfasamento entre os riscos da singularidade nas equipas que formam e o deslumbramento que ela provoca nos adversários que precisam de travar. Salvio não contribui para esse dilema. É como aquelas equipas que toda a gente sabe como jogam mas ninguém consegue vencê-las.

2 A inércia prolongada e a desinspiração afetam-lhe o raciocínio e levam-no a desaproveitar as imensas qualidades em que assenta o seu futebol concreto e retilíneo. Nem sempre sabe esperar pela sua hora. Apesar disso, raramente se entrega a exercícios fora do contexto do jogo e dos interesses da equipa. É um condutor que limpa defensores com golpes de cintura e gere a velocidade segundo a fórmula de sucessivas mudanças de ritmo e direção. Mesmo quando concebe quadros solitários, não se inspira na teatralidade de gestos e movimentos nem age como eterno candidato a herói: na esmagadora maioria dos casos, resolve problemas quando leva a bola, toca e segue, criando condições para que seja o coletivo a descobrir e aproveitar os espaços que os seus marcadores foram deixando vazios na perseguição.

3 Por não ser um grande driblador, despoja extravagância e exibicionismo do reportório. Muitos dos que embriagam o público com soluções exclusivas levam os treinadores à loucura, sob acusação de indisciplina e individualismo – era o que Feola pensava de Pelé e Garrincha em 1958. Salvio não automatizou um drible mas a recusa dessa mecânica repetitiva não implica fazer-se à estrada empenhado apenas em inventar pelo caminho. Pode faltar-lhe a magia que faz do futebol, mais do que um jogo, um espetáculo grandioso e uma expressão de arte absoluta; mas é a estrela que, indiferente a fantasia e hipnose, releva a importância de elementos nem sempre considerados prioritários na definição de um protagonista maior: eficácia, técnica individual, coordenação motora, visão, inteligência, solidariedade e golo – já fez 12 em 2014/15.

4 Não há estilos melhores do que outros. A eternidade habita no génio universal de Figo, Robben, CR7 e Hazard mas também no requinte de Quaresma, Nani e Gaitán; na ação demolidora de Sérgio Conceição, Di María e Carrillo e no golo de Simão, Bale e Tello. Salvio é uma súmula de todos, caracterizado por ter mais interesse no espaço do que nos adversários e valorizar mais o senso comum do que o adorno; é um sprinter que, podendo ganhar terreno em linha reta, não se põe com serpenteados, e um realista com técnica sublime, que não perde tempo com truques. Sendo um jogador com mais olhos para o jogo do que ouvidos para o efeito que provoca nas bancadas, é um extremo em permanente estado de exaltação, que vai sempre direto ao assunto: não engana, desvia-se; não finta, acelera; não espera, atropela; não se recreia, joga futebol.

O senso comum de mister Petit

Começou o campeonato como principal candidato à descida; é hoje um dos favoritos à salvação

O Boavista 2014/15 tornou-se uma grande surpresa da Liga, como reflexo de um treinador que, recebendo manta de retalhos, construiu exército pronto para qualquer batalha. Com a simplicidade de sempre, Petit seguiu o senso comum, ganhou a confiança de todos, não complicou o que, já de si, era difícil e está a levar a água ao seu moinho. Fez do Bessa reduto quase inexpugnável (19 dos 25 pontos foram lá conquistados), melhorou quase todos os jogadores e tem a permanência à vista. Notável.

Porque o futebol é isto mesmo

As fraquezas e as forças de uma equipa sustentam-se muitas vezes em alicerces muito frágeis

Frente ao Penafiel, o Sporting entrou a todo o gás, conjugando compromisso, intensidade e inspiração. Esmagou pelo futebol deslumbrante que desenvolveu e, aos 8 minutos, vencia por 2-0 e tinha a goleada à vista. Tudo se desmoronou como um toque de magia: Slimani executou mau passe para trás; Tobias teve de fazer falta e foi expulso; Braga foi certeiro na execução do livre. O Penafiel, que estava à beira do colapso, cresceu, equilibrou o jogo e chegou ao empate. Tentando encontrar explicação para tão grande reviravolta, a imaginação não chega para mais: o futebol é isto mesmo.

Sp. Braga exige águia perfeita

O Sp. Braga dececionou frente ao FC Porto mas a exibição conteve elementos a ter em conta

A pouca ambição dos minhtos não foi mais do que a consequência de um FC Porto asfixiante, que monopolizou a posse de bola e atacou ininterruptamente mesmo sem traduzir o domínio impiedoso em lances de perigo – prova da excelência do trabalho defensivo bracarense. A poucos dias do jogo na Luz, é um sério aviso ao líder: o Benfica precisará de ser perfeito na ação ofensiva para furar a muralha adversária. Caso contrário, criará condições propícias ao contra-ataque adversário. Que, embora desativado com os dragões, já mostrou ser temível.

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