Samaris já domina a cartilha

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Samaris já domina a cartilha
Samaris já domina a cartilha

1 Numa equipa tão estruturada como o Benfica de Jorge Jesus, orientada por cartilha feita de segredos, cumplicidades, verdades e até algumas mentiras; que liberta o talento individual mas exige o cumprimento de regras mais amplas, há jogadores que não podem ser peças soltas da máquina, isto é, cumpridores de tarefas estritas, logo de influência relativa no funcionamento coletivo. Em seis anos na Luz, o treinador encarnado tem sido exigente na escolha do médio-centro, caracterizado pela consolidação de laços elementares de posicionamentos, decisões combinadas, permutas e compensações. Depois de ter sido feliz com Javi e Matic, o campeão sofreu com as dificuldades de Samaris em adaptar-se às novas exigências. O grego não se identificou à primeira com a mensagem, confundiu-se, decidiu sob pressão e, com medo de falhar, preferiu ir recomeçando cada lance do zero.

2 Enquanto não assimilou a complexidade tática da nova casa, Samaris foi fazendo o que achava melhor; procurava seguir as ordens mas, se não conseguisse cumpri-las, resolvia à sua maneira. Durante muitos meses não fez uma coisa nem outra. O desfasamento da missão que lhe foi exigida levou-o a promover o choque e a grosseria, muitas vezes como último recurso - e já lá vão 14 cartões amarelos na época. Nesse período era um tremor de terra contínuo, que precisava de decisões extremas para resolver os problemas mais simples. Teve de fazer muitas asneiras e cometer muitos erros para perceber o essencial: mais do que ser visto isoladamente como internacional grego e jogador de topo mundial, seria avaliado como representante do treinador em campo, como bandeira da estratégia e principal responsável pela execução do plano.

3 Só o tempo permitiu a Samaris decorar a enciclopédia que sustenta o comportamento da equipa mas, ainda mais importante, entender os seus fundamentos, sinal de que não lhe bastava a resposta mecânica às dificuldades. Era imperioso perceber que cada decisão, com e sem bola, tinha objetivos claros: fechar, subir e compensar; dar segurança, zelar pelo equilíbrio e intimidar em determinados contextos. Samaris cumpre agora, em hora e meia, sucessivos exercícios de memória e, quanto melhor os executa, mais disponível se encontra para dar largas à intuição com que responde a qualquer situação do jogo. Parte da organização e do funcionamento do Benfica 2014/15 depende da sua ação aglutinadora, da influência que exerce na equipa e do talento para fazer o correto em cada instante e circunstância.

4 O grego não é, não pode ser, apenas um inquilino do edifício futebolístico da águia. Não lhe chega ter a casa limpa e arrumada; tem de dar coerência, equilíbrio, segurança, solidez, harmonia e critério a todo o prédio, quando não a todo o bairro, responsabilidade excessiva para triunfar com armas soltas do coletivo. Samaris consolidou a cumplicidade com o treinador, assimilou as ideias, comprometeu-se com elas e tem sido capaz de executá-las com precisão cada vez maior. Muitos puseram em causa se alguma vez seria o médio-centro de que o campeão nacional necessitava, desconfiança para a qual também contribuíram os 10 milhões que custou o seu passe. O resultado está à vista: já todos o olham como herdeiro legítimo da nobre dinastia iniciada em Javi García e que Matic levou ao brilhantismo universal.

Que CR7 seja feliz entre nós

Ronaldo está infeliz em Madrid, atormentado por quem devia limpar o chão por onde passa

A partir dos anos 90, quando a emigração se massificou, a Seleção tornou-se o ponto de encontro ansiado por amigos com um passado comum. Cada regresso a casa tinha a força da reunião da velha turma do liceu e funcionava como alívio das tensões que marcavam os primeiros tempos de uma geração de ouro espalhada pela Europa. O perfil terapêutico das convocatórias foi agora recuperado por CR7, que se reencontrou com a alegria junto dos velhos parceiros de muitos anos. Que seja feliz entre nós.

Fábio notável fora de posição

Após o título europeu do Real, foi mais influente e decisivo do que nunca no regresso à Luz

Fábio Coentrão assinou exibição de gala pela Seleção. Jogou mais à frente do que é hábito e encheu o campo, com recursos técnicos que, no fim de contas, remeteram para os tempos em que era um promissor extremo-esquerdo. Movimentou-se por caminhos paralelos como se os conhecesse desde sempre e, como se não bastasse, ainda teve interferência direta no resultado: deu o golo a Ricardo Carvalho e foi dele o toque para a vitória, dando seguimento ao passe esplendoroso de Moutinho. Tem recursos que excedem em muito os necessários para a função de lateral. É um jogador notável.

Ele sabe tudo menos festejar

Aos 36 anos, sabe tudo sobre o jogo e o papel que lhe está consignado na grande peça

Ricardo Carvalho fez história, tornando-se no jogador mais velho a marcar pela Seleção Nacional. Não precisava da distinção para fazer parte da memória coletiva dos adeptos, porque é um dos melhores defesas da história do futebol e um dos expoentes máximos dos últimos 20 anos. Poucos atingiram a perfeição no modo como se relacionam com os adversários; ocupam o espaço e medem o momento certo para intervir. Domina todos os passos da tarefa. Menos festejar golos. Como se viu agora, na Luz, quando se lesionou a seguir a inaugurar o marcador.

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