Se não "inventar" Benfica será campeão
Julen Lopetegui não tem muito tempo para dar um novo impulso à sua carreira. Ter alcançado os quartos-de-final da Champions no seu primeiro ano como treinador de um clube (de top) não é nada que se deva desprezar. A derrota infligida ao Bayern, no Dragão, de uma forma que havia surpreendido a "Europa do futebol", colocou Lopetegui nas bocas do Mundo e até o "As" o posicionou entre os candidatos à substituição de Ancelotti no Real Madrid. A seu favor e como factor valorativo tinha uma carreira - como treinador - construída numa federação, longe da "carpintaria" dos clubes, e uma apetência especial para extrair rendimento de jovens jogadores. Não se esqueça que foi essa, aliás, a razão declarada por Pinto da Costa segundo a qual a escolha recaíra no técnico basco. Tinha o perfil certo para mudar a mentalidade que se estava a anichar, perigosamente, no Dragão, uma mentalidade confessadamente muito próxima de um certo mercenarismo que urgia combater e expurgar com urgência do "quartel-general" dos azuis e brancos.
Apesar de o Benfica ter quase tudo a seu favor no clássico de amanhã, e de o FC Porto ter sido manifestamente incapaz de gerir em proveito próprio a importante vantagem adregada no encontro da primeira mão, desperdiçando um capital preciosíssimo, não se deve ignorar que o FC Porto ainda está "em jogo". O Benfica-FC Porto passou a ser, para todos os que fazem parte da "estrutura", a grande final desta época. Não ganhar o jogo na Luz é dizer adeus ao título e concorrer para mais uma época em branco do emblema do dragão no panorama futebolístico nacional e internacional, em contraste com a lógica de conquistas dos últimos (largos) anos. E isso é, só por si, um acontecimento.
A próxima hora e meia competitiva é, pois, de vital importância para o FC Porto, mas também para Julen Lopetegui. O esforço financeiro efectuado pela SAD portista, num momento em que todos os indicadores aconselhariam a uma certa contenção, teve a compensação de uma participação europeia positiva, mas fica aquém do objectivo traçado, se não conseguir roubar o título ao Benfica, com a agravante de repetir a "fórmula zero" em troféus.
O balanço em redor da contratação de Lopetegui está muito próximo de ganhar foros de oportunidade, mas esse balanço vai depender em muito do que for conseguido, amanhã, na Luz. É que Lopetegui foi uma aposta de risco. Um treinador sem experiência a este nível, por mais sólidos que sejam os seus princípios e formação, é sempre um risco. Um risco amplificado pelo facto de Lopetegui ter escolhido uma percentagem altíssima de jogadores, predominantemente jovens, que aceitaram passar por Portugal e pelo Porto em condições muito especiais. Esta aposta - é bom não esquecê-lo - teve a alimentá-la uma "operação relâmpago" ou, se se quiser, uma efectiva emergência. Se não conhecer resultados palpáveis, não pode deixar de se considerar um fracasso, não apenas pelo tal contraste já referenciado, mas sobretudo porque não vai ser fácil dar continuidade a este projecto. Há jogadores emprestados que vão regressar às origens e outros há impossíveis de segurar, como parece ser o caso de Jackson Martínez. De resto, quem faz um contrato tão longo com um treinador (válido por três anos) não pode estar a pensar numa passagem episódica. O FC Porto não é disso. Mas quando Pinto da Costa, no momento do anúncio da contratação, disse que "queremos continuar a perder de vez em quando e não a ganhar de vez em quando", sabe, perfeitamente, que esse raciocínio pressupunha ganhar já este ano.
Não tenho grandes dúvidas: Lopetegui é um "treinador-professor", de bons conceitos e princípios, mas é, por isso, demasiado laboratorial, faltando-lhe algum sentido prático e alguma "ratice" que a carreira de jogador não lhe deu. Nesse sentido, também está a fazer do FC Porto o seu próprio laboratório. Jesus? É o inverso: imagem acabada do "treinador-treinador". Quando quer ser professor-inventor... dá-se mal.
...E a abordagem ao jogo de amanhã? Creio que, na óptica do interesse do Benfica, basta não inventar. Isto é: parece-me que o Benfica tem toda vantagem em não alterar nada em relação à sua matriz habitual e deve fazer aquilo que vem fazendo na Luz - tentar marcar cedo, com a particularidade que, se o fizer, perante uma equipa ferida psicologicamente, poderá acelerar o colapso do adversário. Se quiser jogar com o resultado, sem dúvida uma tentação, estará a dar trunfos ao FC Porto...
Aproxima-se a hora das grandes decisões, num jogo em que Jorge Jesus se torna no treinador do Benfica com mais jogos realizados no campeonato. Histórico, portanto.
JARDIM DAS ESTRELAS
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Adiamento estratégico?
Moreirense-Sporting à segunda-feira à noite? O Sporting já não está na Europa, o Benfica-FC Porto é transmitido pela BTV, nem sequer é um caso de concorrência entre operadores distintos, pelo que o adiamento do jogo não pode deixar, numa primeira análise, de causar alguma estranheza. Só há um motivo aparente: o facto de o Sporting estar envolvido neste fim-de-semana em várias frentes desportivas - no futsal e no hóquei em patins. Uma opção em clara contramão com aquilo que parece estar convencionado. Um presidente eclético para um clube eclético? Uma marca estratégica diferenciadora para levar a sério ou apenas um facto episódico? E que interpretação faz a estrutura do futebol profissional?… Para reflexão.
O CACTO
"Expansão", sim - e que mais?
Bruno de Carvalho vem apenas dar seguimento a uma prática comum no dirigismo desportivo, designadamente com presidentes de clubes de futebol. Temos visto Pinto da Costa (FC Porto) e Luís Filipe Vieira (Benfica) em viagens e périplos semelhantes pelos quatro cantos do Mundo, às vezes criando similitudes com figuras de Estado. A lusofonia e o objectivo da expansão parecem tudo justificar e há uma tendência generalizada de aceitar esses périplos - como acontece com as personalidades do governo português - sem uma interrogação. Que é esta: sendo pacífico que há alguma coisa a ganhar, o que ganham efectivamente os clubes e as SAD com tantas voltas ao Mundo?…
