Sem margem para errar
As semanas de incerteza que o Sporting vive ajudam a perceber que os problemas do clube nunca tiveram a ver com o treinador. Domingos Paciência e Sá Pinto foram vítimas de uma liderança fraca, que se não soubéssemos da experiência das pessoas em causa, até se diria ser digna de principiantes. O projeto do Sporting, além da necessária gestão financeira, exige uma maior visão desportiva. E este parece ser o calcanhar de Aquiles na atual estrutura dos leões.
De modo a aproveitar a atual paragem do campeonato, tudo levava a crer que o Sporting iria agir rapidamente na escolha do sucessor de Sá Pinto. Isso permitiria que o novo treinador pudesse conhecer melhor os cantos à casa e transmitir as suas ideias ao plantel antes de chegarem os jogos a doer.
Nada disso se passou. Pelo contrário, a indefinição do dossiê treinador colocou o Sporting em plena crise, falando-se na saída de dirigentes. Com ou sem culpas no cartório, Godinho Lopes acaba por sair malvisto na fotografia. Enquanto responsável máximo do clube, tem de impor decisões e a escolha do treinador deveria ser uma matéria da sua responsabilidade.
Tal não aconteceu e vários nomes de treinadores saltaram para a praça pública. E as crónicas fugas de informação acabam por dificultar as negociações, não deixando o clube agir de forma rápida e certeira. Godinho Lopes tem aqui um teste de fogo. Terá de provar aos sócios do Sporting que tem a competência para encontrar um timoneiro que volte a colocar os leões no rumo certo.
Não bastará encontrar um novo treinador. Há que dar um apoio incondicional ao escolhido e aprender com o passado. Domingos foi demitido um dia depois de ter recebido um voto de confiança da direção. Sá Pinto, após os elogios iniciais, ficou com a cabeça a prémio depois de ter perdido a Taça de Portugal para Académica no ano anterior e acabou por ter o mesmo destino. A forma como o FC Porto geriu a situação de Vítor Pereira, protegendo-o quando todos pediam a sua demissão, devia servir de inspiração em Alvalade.
Mas não basta contratar um técnico para pensar que todos os problemas ficarão resolvidos. Há que definir uma estratégia desportiva, na qual o treinador é só uma peça do puzzle. O Sporting tem de definir uma matriz de jogo, que não oscile de cada vez que entra um novo treinador, um modelo que se estenda às camadas jovens.
É estranho dizer isto. Porque era exatamente o que o Sporting fazia, e bem, até há alguns anos. O clube português que melhor rentabilizava a sua formação passou a contratar imensos estrangeiros (24 em duas épocas). E enquanto clube formador, o Sporting tem aqui o seu maior ativo, precisando apenas de conciliar isso com uma maior deteção de talentos no mercado externo para comprar barato e vender caro, como fazem FC Porto e Benfica. As equipas nacionais, por razões financeiras, têm de apostar na valorização de ativos.
Nesta última vertente, o leão deixou-se ultrapassar pelo Sporting de Braga, um clube com menos recursos, mas que se movimenta muito melhor a vender e a comprar. E repare-se que foram vários os treinadores que passaram por Braga nos últimos anos e os minhotos nunca baixaram o seu nível competitivo. Porquê? Porque têm uma liderança forte. É a base do sucesso. É disto que o Sporting está a precisar.
O CRAQUE
Contra todas as crítricas
Sempre foi um jogador mal amado e pouco valorizado. Na era Paulo Bento, Hélder Postiga já marcou 12 golos pela Seleção Nacional, marca apenas superada pelos 14 de Cristiano Ronaldo. Os números desmentem o rol de críticas apontadas ao avançado do Saragoça. Na equipa das quinas é o sétimo melhor marcador de sempre (23 golos) e o avançado mais eficaz que surgiu no futebol português depois de Pauleta. Empenho não lhe falta. É oportuno, tem técnica e bom jogo aéreo. E marcou nos Europeus de 2004, 2008 e 2012. Porque se tenta fazer dele um bode expiatório?
A JOGADA
Um milhar cheio de êxitos
Quando o FC Porto visitar o Estoril, na próxima jornada da 1.ª Liga, Pinto da Costa irá cumprir o seu jogo número 1.000 no campeonato como líder dos dragões. É uma marca impressionante que personifica o êxito que o presidente do FC Porto trouxe para o clube nos seus 30 anos de consulado. Em 999 jogos, apenas sofreu 92 derrotas e as 723 vitórias ajudaram-no a ser campeão por 19 vezes. Pinto da Costa é o grande responsável pelo crescimento do clube. Criou uma estrutura desportiva fortíssima e um modelo de liderança presidencialista do melhor que há no Mundo.
A DÚVIDA
Dias difíceis estão para chegar
Os milhões que se movimentam no futebol deixam passar a ideia de que esta atividade passa ao lado da crise. Pura ilusão. O passivo dos clubes não pára de aumentar e as medidas da proposta para o Orçamento do Estado para 2013 fazem antever mais dificuldades. Com o aumento da tributação de IRS, a Liga portuguesa será menos atraente. O médio Souza, emprestado pelo FC Porto ao Grémio, foi o primeiro a abordar a situação, afirmando que quer ficar no Brasil. Não será de estranhar a fuga de craques. Será que vamos assistir a uma debandada de jogadores em janeiro?
