Sem paciência para virgens ofendidas

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O director do “Jornal de Negócios”, Sérgio Figueiredo, assinou há duas semanas a sua crónica na página dos Palpites Record. Sportinguista conhecido, aquele jornalista emitiu a sua opinião sobre a gestão da SAD do Sporting, fazendo-o da forma que obedece à sua qualidade humana: com urbanidade e moderação. A exemplo do que já aconteceu com outro adepto leonino, Jorge Gabriel – que assina todos os sábados nestas colunas artigos marcados pelo desassombro e pela oportunidade nos quais muitas vezes se refere ao seu clube –, levantou-se por aí um coro de protestos nem sempre marcados pela correcção. Nada que não tenhamos de compreender, pelo que venho hoje a terreiro explicar a posição do director de Record, que julgo ser de total clareza. Em primeiro lugar porque renova a confiança naqueles que convidámos para escrever no jornal e com os quais estamos obviamente solidários, concordando ou não com as opiniões que expressam. Depois, porque subscrevendo as críticas não pode a seguir o jornalista pretender furtar-se a ouvir as respostas. E só é pena que haja em Portugal tão pouca cultura de confronto de ideias e tanta prontidão das virgens ofendidas em pedir a cabeça dos que ousam atingir os seus delicados ouvidos. Record já era uma tribuna livre quando aqui cheguei e assim continuará quando eu sair.

1 - Jaime Pacheco

Tem desempenhado a sua tarefa com a paciência da formiga e José Mourinho elogiou-o na sua última crónica no Record. Jaime Pacheco teve a capacidade suficiente para fazer com que João Loureiro não precisasse de outro treinador para gerar a mudança. Ele próprio renovou a equipa campeã – que deixara de produzir um futebol de suficiente qualidade para continuar ao menos a lutar pela Europa –, desistiu de uma alternativa menos feliz e construiu outra, uma vez mais à sua imagem: com organização e poder de combate. A nove jornadas do fim, o Boavista, que recebe ainda no Bessa as quatro equipas que decidem com ele o título, está já “colado” ao FC Porto e à frente do Sporting. O pelotão dos bravos voltou.

2 - Edgar Marcelino

0 azar não deixa de perseguir Peseiro e o Sporting. É verdade que os leões voltaram a cometer erros inexplicáveis – ai aquela entrada de Rogério para o meio-campo onde não joga para aí há seis meses! – e a sofrer com dois momentos infelizes de Hugo, mas também Sá Pinto ainda agora está para saber como não concretizou aquela cabeçada que Nuno Santos defendeu com garra e felicidade, e Tello já amaldiçoou mil vezes o pé “cego” que o obrigou a rematar com o outro, e para fora, com a baliza aberta. Tivesse nesses dois lances o Sporting a sorte do jogo e tudo seria diferente. E Edgar Marcelino, como Paulo Sérgio no desafio do Restelo, escusava de ter mostrado a Peseiro que, afinal, lhe fazia muito jeito. A vida é dura.

3 - Silva

Lindo... Depois de tantos iluminados terem anuncido a morte do “pistoleiro” e de Silva ter deixado o Sporting por excesso de pontas-de-lança, como se tem visto, estes dois golos e “meio” ao Vitória de Setúbal mostram que o homem está vivo e recomenda-se. Não tanto pelos 6 tentos que leva na SuperLiga, mas por ser um dos símbolos mais destacados da excelente segunda volta do Vitória de Guimarães – 15 pontos, apenas menos 2 do que o Benfica e mais um do que FC Porto, Braga e Boavista. Mas é bom que se lembre, numa altura em que tudo são sorrisos, o muito que sofreu Manuel Machado para impor o seu trabalho e o apoio que lhe deu o presidente Vítor Magalhães, certo de que a qualidade compensa sempre.

4 - Pedro Emanuel

O FC Porto foi justamente eliminado da Liga dos Campeões. Ontem, depois do golo arrancado a ferros pelo sempre admirável Jorge Costa, ainda se sonhou com a hipótese do 2-2 que daria o apuramento, mas o certo é que nunca mais os portistas se aproximaram com perigo da baliza de Toldo, revelando uma capacidade física débil, bem como uma condição anímica deplorável, só compreensível depois da histórica derrota com o Nacional. Aquele FCP já não é o campeão europeu, mas um FCP de transição que faz a ponte entre a grande equipa de Mourinho e uma outra que está a nascer. Porque existe um factor que não se alterou desde a época passada, mesmo há já vários anos: o temperamento dos jogadores. Aquela corrida fantástica do lesionado Pedro Emanuel, que veio do meio-campo até à linha de baliza para evitar um golo do Inter, é um sinal de que existe ali uma “alma” adormecida. Acordá-la é o grande desafio.

5 - João Carlos Pereira

São as ironias do destino, que sempre tem os seus protegidos e aqueles a quem abandona... João Carlos Pereira, depois de um brilharete na Académica, acabou esgotado por tanta falta de alternativas e de pontaria dos avançados na hora do remate. Mas sabe-se hoje que, ao deixar Coimbra, a sorte bafejou-o por duas vezes numa só. Por um lado, viu-se livre do problema da Briosa, que só Deus e a estrelinha de Nelo Vingada poderão ainda salvar da descida. Por outro, ficou com o caminho livre para a Choupana, onde um plantel mais rico lhe permitiu provar que não é uma ilusão, mas uma realidade positiva do futebol Português. Ganhar ao FCP no Dragão, e de goleada, é tarefa para poucos. E esse pedaço de glória já ninguém lhe tira.

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