Sentimento de perda
"Não falo mais até ao final da temporada." Estas foram as palavras do Cristiano Ronaldo, depois do jogo com o Schalke 04, da segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, disputado no Estádio Santiago Bernabéu. Para muitos esta atitude do génio português de não falar mais à imprensa até junho deve-se ao péssimo comportamento dos adeptos merengues naquela noite, mas, na minha opinião, são outras as razões.
Éverdade que o Real Madrid perdia por 4-3 em casa, os madridistas estavam encostados às cordas e, com mais um golo do Schalke 04, os merengues seriam eliminados. Naquele momento, a equipa necessitava mais do que nunca do apoio dos seus adeptos, mas, inexplicavelmente, o Bernabéu insultava e assobiava os seus jogadores. Sem dúvida que pode ter sido por este motivo.
Mas, na minha opinião, a atitude do português nada tem a ver com os assobios. Estou, aliás, completamente de acordo com o ex-jogador do Real Madrid, Guti, quando, umas horas depois daquela afirmação do Cristiano, disse num programa de televisão: "Quando me separei da minha mulher, estive dois anos a tomar antidepressivos. Jogava no Real Madrid e a situação não era nada fácil para mim. Durante esse tempo tinha de jogar e tomava comprimidos sem ninguém saber. Estava a viver uma situação difícil. Ainda por cima tinha de jogar no Estádio Bernabéu e aguentar toda aquela pressão. Falei com o médico do Real Madrid e comecei a ir a um psicólogo, que me receitou os medicamentos. Com a ajuda da família, e especialmente com a força que tive, fui saindo pouco a pouco da situação que estava a viver. Tinha de esquecer as coisas bonitas, e as grandes recordações, e olhar para a frente, porque a vida continuava. Mas ao início foi muito complicado. Estava num túnel sem saída. Recordo-me que, quando jogava fora de casa, aquelas horas mortas que passava sozinho no hotel eram uma loucura. Por isto, entendo o Cristiano ou qualquer outra pessoa de qualquer profissão. Uma separação afeta qualquer ser humano."
Recordo tudo isto porque, na semana passada, Portugal jogou contra a Sérvia, ganhámos, e, para muitos, o momento mais negativo foi o Cristiano Ronaldo não falar para a imprensa portuguesa, após o jogo. Dizem que a Seleção nada tem a ver com o Real Madrid e que não entendiam a atitude do melhor jogador do Mundo, considerada uma falta de respeito. Percebo estas críticas ao Cristiano, embora considere que não é a imprensa espanhola ou portuguesa que estão em causa, mas uma questão pessoal.
O Guti esteve dois anos a tomar antidepressivos, depois da relação com a sua mulher ter acabado, e só a partir deste período conseguiu esquecer o passado. O Cristiano Ronaldo e a sua namorada tinham uma relação de cinco ou seis anos e acabaram tudo no princípio de janeiro. Quando ele disse que não falava mais, estávamos no princípio de março. Tinham passado apenas dois meses do fim da sua relação, pelo que surge agora o momento mais crítico.
O Cristiano é o melhor jogador do Mundo, mas convém não esquecer que também é um ser humano. Há milhões de pessoas como nós, que nos separámos e passámos pela mesma situação, que conhecem o horrível sentimento de perda. Ter de esquecer e tirar da cabeça o marido ou a esposa, o namorado ou namorada, o companheiro ou companheira, depois de com eles viver ou conviver vários anos juntos, é simplesmente um pesadelo diário. Como disse o Guti, nos primeiros meses é como estar num túnel sem saída e o Ronaldo neste momento está dentro deste túnel. Cristiano, eu, como português, adorava ouvir a tua opinião como capitão da Seleção depois do jogo com a Sérvia, mas entendo-te e estás perdoado. Muita força para deixares o túnel o mais rápido possível!
Grande caldeirada - Taça da Liga
Sempre disse que esta competição era secundária para as equipas grandes. Para os principais clubes, a Taça da Liga é ideal para os teóricos suplentes e para aqueles que estão a sair de uma lesão jogarem e ganhar ritmo. É uma competição muito parecida ao campeonato de reservas, quando eu comecei como profissional. Muitas coisas têm de mudar para que os grandes clubes levem esta competição mais a sério. Como podem calendarizar uma meia-final a uma quinta-feira, quando na terça-feira houve quem jogasse pela sua seleção? Inacreditável!
A jogada - A proeza de Rui Águas
Portugal perdeu 2-0 com Cabo Verde na última terça-feira. O jogo foi no Estoril e para os cabo-verdianos era muito mais do que um particular. Por isso fiquei muito contente pelo seu treinador. O Rui Águas foi meu colega de equipa da Seleção, no Benfica e, já no final das nossas carreiras, na Reggiana, em Itália. Meu querido e grande amigo Ruizinho, muitos parabéns e muita força para esta grande e maravilhosa aventura que estás a viver em Cabo Verde!
Do meu álbum - A Páscoa
Há datas que só começas a dar valor quando deixas de jogar e sem dúvida alguma que uma delas é a Páscoa. A partir dos iniciados, com o Sporting ou com a Seleção, jogava sempre em torneios da Páscoa e durante toda a carreira como profissional tive de treinar e competir nestes dias. Era uma semana igual a todas as outras. Os profissionais ibéricos só começam a dar valor à Páscoa e à Semana Santa depois de estarem retirados.
