Ser do Atlético
Gostar e sofrer por um clube pequeno como o Atlético sem ter nascido ou morado em Alcântara, em Santo Amaro, na Ajuda ou no Rio Seco - nem tendo ninguém na família com esta filiação clubística - é pouco provável. Mas acontece. "Basta", por uma qualquer casualidade da vida, ter representado esta simpática colectividade de gente trabalhadora, humilde, corajosa e dedicada.
Recordo-me bem dos meus primeiros dias enquanto jogador juvenil de basquetebol do Atlético. Aquilo parecia-me um clube estranho, bastante diferente dos outros. As pessoas eram todas acessíveis, acompanhavam tanto os conjuntos seniores como os escalões de formação e nunca viravam a cara à luta. E mais importante: mesmo com dificuldades próprias de uma agremiação que vivia com pouco dinheiro todos os dirigentes, técnicos e adeptos se esforçavam para que nada faltasse aos seus atletas. A nós competia-nos procurar, até à exaustão, os triunfos. É claro que nos sentíamos melhor quando ganhávamos (o que sucedia na maioria das vezes), mas o essencial era fazer tudo para lá chegar. Era esse o lema daquela gente, era isso que nos pediam...
Não demorei muito a ficar apaixonado por aquele clube com uma filosofia tão própria. Jamais esquecerei as vitórias que ajudei a conquistar como jogador e mais tarde enquanto treinador. Mas, fundamental é continuar a ter, tantos anos depois, amigos entre as pessoas que conheci há duas décadas.
Já lá vão muitos anos desde que deixei de ter uma ligação diária ao Atlético e a Alcântara, mas nunca deixei de acompanhar o que se passa. Mesmo à distância sigo as incidências do clube e, claro, há uns meses aproveitei uma folga para assitir, "in loco", à subida para a II Divisão.
Sabia que ia ser muito difícil ver o Atlético sair do Dragão sem ser "chamuscado". Mas tinha uma fezada enorme que isso podia acontecer. Sei como em Alcântara se faz a mentalização para jogos com esta envolvência. A atitude, tinha a certeza, ia ser a melhor. Precisávamos era de contar com uma pontinha de sorte. E ela esteve lá quando foi precisa, nomeadamente aquando do penálti que me provocou um susto de morte já no final do perído dos descontos. Agora, todos os meus camaradas do Record compreendem que não estava a brincar quando, repetidas vezes, lhes disse que era possível fazer uma surpresa perante o grande FC Porto. Só o Quaresma me preocupava. Felizmente, esse não assustava o Pedro Pereira. Ainda bem!
Espero que esta época ainda traga mais alegrias ao Atlético. A subida à Liga de Honra, não sendo uma obrigação, é possível. Como falhei a presença no Dragão, asseguro, desde já, que estarei no jogo da próxima subida. Quanto à Taça de Portugal... que venha outro "tubarão".
Bom, agora tenho mesmo de ir relaxar. Comer uns bichos com muitas patas e beber vinho verde é o mínimo que se pode fazer num dia assim. Alcântara espera por mim!
