Ser ou não ser profissional
Tenho a certeza da competência de Freitas do Amaral, uma ideia inútil, já que ele é ministro dos Negócios Estrangeiros, queira eu ou não. Mas a verdade é que, com as suas intervenções, libertou da prisão no Dubai o realizador Ivo Ferreira e ajudou António Guterres a ser escolhido para Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Tenho dúvidas da competência de Nuno Cardoso para administrar a empresa Águas de Portugal, outra ideia inútil, já que ele vai ter assento no conselho, queira eu ou não. Mas a verdade é que já o vimos meter água tantas vezes que se calhar ele tem mesmo perfil para a coisa.
Gostava que no futebol houvesse também esta clareza quanto às competências e consequentes resultados. Infelizmente, nessa área as águas ainda não estão separadas, e os melhores e os piores resultados aparecem de onde menos se espera. Foi o caso do Benfica, que tendo perdido muito justamente a Taça de Portugal para o Vitória de Setúbal, o fez antes de mais por ter “fechado para obras” nos dias seguintes ao triunfo na SuperLiga, colocando a alegria da festa, igualmente justa, à frente da manutenção dos níveis físicos e de concentração indispensáveis à conquista da “dobradinha”. Não podiam ter esperado mais oito dias?
1 - Trapattoni
Teve pouca sorte o treinador italiano ao não conseguir terminar, como merecia, a temporada em beleza. Talvez tenha levado longe de mais a sua compreensão deste país especial, onde a disciplina é para ser levada a sério, mas não muito, onde o rigor é para ser mesmo aplicado, desde que não exageradamente, e onde o trabalho é um valor primordial, se não nos cansar, claro. Ao permitir, se calhar por já não estar para se chatear mais, que a festa do título se prolongasse para além do aconselhável, Mr. Trap perdeu a chave de ouro da época. Mas fica na história do futebol português, graças ao título de campeão conseguido muito à custa de um conhecimento profundo da sua profissão e de uma juventude que parece eterna. Que seja feliz!
2 - Norton
0 final do trabalho de José Rachão em Setúbal – depois de um início calamitoso em que parecia que nunca mais o Vitória ganhava um jogo –, marcado pela conquista da Taça, pode considerar-se fantástico e devia, em situação normal, garantir-lhe uma automática, e merecida, renovação de contrato. Creio, no entanto, que Chumbita Nunes, se se confirmar a opção por Norton de Matos, terá entendido que o Vitória pode dar agora o passo em frente, saltar para uma dimensão superior. A SuperLiga deste ano e a própria final da Taça provaram que os clubes ditos de “segunda linha” podem rapidamente chegar-se à frente e discutir taco a taco com os chamados “grandes”. E o Vitória será, seguramente, uma dessas revelações.
3 - Peseiro
Lá estou eu com a minha aguerrida costela de contestação a José Peseiro, dirão alguns dos meus leitores... Mas não é verdade. Já escrevi até – veremos, é certo, se também não me arrependo dessa... – que estou convencido de que a segunda época do técnico leonino em Alvalade pode beneficiar com os erros cometidos na primeira. Pode, porque do poder ao ser ainda vai uma grande distância... É que dá-me a ideia, se calhar falsa, de que o Sporting se prepara para escavacar aquele que para mim foi não só o plantel mais equilibrado da SuperLiga como o que melhor futebol praticou. As possíveis saídas de Liedson, Douala, Enakarhire, Viana ou Ricardo fazem temer uma desgraça. Ou estarei a dramatizar uma situação normalíssima?
4 - Aleksander Donner
O nosso Portugalzinho começa a entender que, para se ganhar, há que contar com os melhores. Creio que o golpe de asa de Gilberto Madaíl ao contratar Luiz Felipe Scolari, logo depois de o brasileiro se tornar campeão do Mundo, e o êxito dentro e fora de portas de José Mourinho ajudaram a abrir a cabeça de muitos decisores nacionais, até há pouco habituados a contratar profissionais através de tráficos de influências ou de simples conhecimento das primas – és de confiança, logo serves. Luís Filipe Vieira já tinha dado provas do seu “olho clínico” – que não é, no seu caso, mais do que a lucidez colocada ao serviço dos objectivos e dos resultados nos negócios – ao ir buscar Camacho e logo depois Trapattoni, já que foram eles, cada um à sua maneira, que colaram as peças partidas e devolveram dimensão ao futebol do Benfica. E o líder encarnado volta a dar sinal da sua visão ao ir buscar à Madeira o homem que mais sabe de andebol em Portugal, o ucraniano Aleksander Donner, de 56 anos. Se, como se espera, a próxima época trouxer a paz à modalidade no nosso país, é certo e sabido que lá teremos o Benfica a disputar mais um título. Porque começou por atacar a raiz do problema: ninguém melhor do que um treinador campeão para dirigir jogadores que querem ser... campeões. Parece simples, não é?
5 - Carvalhal
Só posso pedir perdão aos leitores por voltar à vaca fria da “performance” belenense neste meu último “Off-Side” da época 2004-2005. É que ao nada entusiasmante 9.º lugar – bem melhor, é verdade, do que aconteceu há um ano... – se junta agora uma política de dispensas dificilmente entendível. Se percebo a saída do já suplente Tuck, não compreendo porque passou Wilson de titular indiscutível a dispensável, assim, sem mais nem menos, como um Renato qualquer contratado à revelia do treinador. Como não compreendo que a inegável utilidade de Marco Paulo tenha deixado de ser útil. Por este andar, o Belenenses fica sem jogadores que conheçam o clube e sintam, ao menos um bocadinho, a camisola. Ai, Carvalhal!...
