Sim, sr. Scolari
Scolari tinha prometido uma surpresa e devo dizer que fiquei preocupado. Embora julgue entender o raciocínio do seleccionador, que tem, aliás, pautado a sua conduta no cargo por uma coerência fantástica, a hipótese de uma surpresa permitia sempre que se admitisse o eventual regresso à "equipa de todos nós" de uma daquelas personagens que tanto dano lhe causaram em circunstâncias passadas. Preocupação inútil, com a graça de Deus. Scolari fez uma escolha que roça a perfeição, não só porque recorreu aos melhores jogadores, como também porque seleccionou homens de carácter, profissionais que saberão dar à equipa nacional o que ainda lhe falta para poder cumprir o objectivo de alcançar as meias-finais: garra, brio, determinação, espírito colectivo e, especialmente, capacidade para mobilizar Portugal e entusiasmar os portugueses. Luiz Felipe Scolari entendeu, e bem, que esse era o caminho. Só por isso já é bom tê-lo connosco.
1. Moreira
Teve toda a justiça a decisão de Scolari de escolher Moreira para o trio de guarda-redes da Selecção no Euro. Essa chamada premeia não só o valor de um jovem que aceitou e ganhou o enorme desafio de guardar a baliza de uma equipa que levou meses e meses a jogar sobre brasas, como aparece ainda como corolário de uma época excelente, na qual Moreira teve actuações decisivas para a boa época que o Benfica veio a conseguir. Mas repito o que já aqui escrevi: ainda não é o tempo de Moreira. O modo como, no domingo, hesitou na maneira de meter as mãos à bola no tremendo remate de Deco, e acabou por a socar para a frente, permitindo o golo, é sinal de que ainda não "está lá". Tempo virá.
2. N. Gomes
Os Nunos estiveram em evidência no jogo da final da Taça de Portugal. Nuno Valente pelo "carinho" que dedicou a Geovanni; Nuno Espírito Santo pelo modo como não conseguiu "encurralar" Zahovic junto à linha de fundo e o deixou (Baía deixaria?) centrar para o golo da vitória encarnada; e Nuno Gomes, desde logo pela sua grande desmarcação no quarto de hora de sonho do Benfica, que culminaria com o remate ao poste - e tanto que o Nuno acerta nos postes! Mas o magnífico ponta-de-lança da Luz teria mais tarde o seu momento mágico: o toque de calcanhar que meteu a bola por debaixo das pernas de Ricardo Carvalho para a vitoriosa conclusão de Fyssas. Obra de arte!
3. Lucílio B.
De uma coisa podemos estar certos: havia outros árbitros portugueses - como Pedro Henriques ou Pedro Proença - que suscitariam mais emoção caso o sistema os levasse a apitar jogos do Euro. Mas o eleito foi Lucílio Baptista e pronto, lá temos de contar com ele para representar os juízes de campo cá da terra. Tenho particular curiosidade em avaliar a sua actuação em partidas internacionais, já que nos joguinhos intramuros não sou apreciador do estilo "equilibrado" de LB. Ainda agora no Jamor... Por que ficou Nuno Valente em campo depois da cotovelada em Geovanni? E como é que os oito olhos dos juízes não viram o pontapé de Aguiar a Derlei? E mais, e mais Lucílio...
4. Porquê, Jorge Costa?
O árbitro da final da Taça de Portugal não fez, de facto, um grande trabalho. Mas ainda hoje estou para saber os motivos que levaram Jorge Costa a ir tomar banho mais cedo. Não me venham com conversas - não é um jogador inexperiente, sabia que já tinha um cartão amarelo... Como se deixa apanhar pela segunda vez? Se bem me lembro, leva o primeiro amarelo por agarrar um adversário numa jogada sem perigo iminente, e vê o segundo após derrubar Nuno Gomes, pelas costas, noutro lance em que não havia golo à vista. Incompreensível num profissional com a sua tarimba! Mas que é bem capaz de o FC Porto ter aí perdido a Taça, é. Outra coisa a apontar é a rebaldaria que hoje se vive no futebol português, com os jogadores a insultarem os árbitros e os seus assistentes, gozando de uma impunidade de bradar aos céus. O próprio Jorge Costa insultou o fiscal de linha do lado da bancada com uma expressão que a TV captou na perfeição, expressão, aliás, muito utilizada pelos futebolistas com... alguns árbitros. Igual à que usou agora - em perfeito castelhano! - o britânico David Beckham, e que lhe valeu a expulsão em Múrcia. Por cá, é fechar olhos e ouvidos e toca a andar. Bem, mas não fujamos ao assunto: por que se deixou expulsar Jorge Costa?
5. Figo
Só uma palavra para classificar a exibição de Luís Figo em Múrcia, utilizou o diário "Marca": digno. Tem sido essa, aliás, a imagem de marca do grande jogador português em toda a época, um exemplo para os outros "galácticos", cujo paupérrimo rendimento resulta no que verdadeiramente tramou Carlos Queiroz. E depois de Zidane ter sido expulso ainda há poucas semanas por acumulação de amarelos - "à Jorge Costa" - foi agora a vez (a segunda em pouco tempo) de Beckham ver o cartão vermelho e deixar o Real a jogar com 10. No meio da dolorosa agonia de CQ, fique ao menos a postura de Luís Figo e a boa forma com que promete apresentar-se na Selecção.
Perguntas leva-as o vento...
1. Quem é o futebolista que está zangado com o Record, mas que não perde uma oportunidade para derramar o seu charme sobre as nossas Fanáticas?
2. Quem é a "top model" que antes de falar com a imprensa consulta uma "lista negra" de jornais "proibidos" elaborada pelo seu mais-que-tudo?
3. Quem foi o ministro que num evento para explicar o que já se fez sobre o Euro "martirizou" os convidados com um discurso "à Fidel Castro"?
4. Quem foi a personalidade que monopolizou a conversa num jantar a propósito da Taça de Portugal, sempre a falar alto e a tratar toda a gente por tu?
5. Quem foi o treinador que se dirigiu aos seus jogadores no final de um jogo decisivo e lhes disse: "Vocês são uma cambada de chulos!"?
O vento traz as perguntas, o vento leva as respostas...
