Siqueira já matou fantasmas

Adicione como fonte preferencial no Google
Siqueira já matou fantasmas
Siqueira já matou fantasmas

1 O campo de futebol é como um palco: tem espaços e papéis reservados aos grandes artistas, outros a figuras secundárias em busca de reconhecimento e outros ainda onde (a quem) se exige apenas eficácia. É o caso das faixas laterais recuadas, onde a obrigação de cumprir regras específicas é mais importante que o desejo de brilhar; onde cada um precisa de disponibilidade mental para entender que, só por acaso, os holofotes iluminarão terrenos condenados, à partida, a viver na sombra das mais sublimes interpretações.

Sendo certo que as grandes peças dependem menos dos atores secundários e muito mais dos grandes protagonistas, há casos extremos em que o mau desempenho em zonas periféricas à ação principal dita o insucesso final da obra. No Benfica, a esquerda defensiva foi um problema de difícil resolução até à chegada de Siqueira.

2 Naquele corredor maldito, que as circunstâncias transformaram num trilho de fatalidade para quem o percorria, o brasileiro recusou ser engolido pelas areias movediças que foram fazendo vítimas sucessivas entre as águias. Jogador de fama fugidia, Siqueira está a impor-se pela solidez do saber, pelo brilho da prudência e pelos privilégios de homem quase invisível no desempenho de uma função na qual os antecessores deram nas vistas por maus motivos. Em pouco tempo já matou os fantasmas domésticos que atormentaram jogadores mais ou menos experientes, com mais ou menos talento, mais ou menos adaptados, lote do qual fazem parte Shaffer, Carole, Capdevila, Emerson, Melgarejo, Luisinho e Cortez, entre outros.

3 Siqueira é um lateral que domina os princípios básicos da tarefa, assente em virtudes medicinais que acalmam os espíritos mais agitados: sabe viver atrás e à frente; tem aventura para ir e responsabilidade para voltar; joga bem com a bola e conhece as regras que o orientam quando está longe dela; articula os movimentos com o lateral do lado oposto, pelo que tanto se revela em ação ofensiva como em apoio aos centrais. Orientado por energia convincente mas ao mesmo tempo por uma atitude serena; frenético em ação mas emocionalmente equilibrado; empreendedor mas inteligente nas decisões que toma, domina a cartilha dos laterais, adaptando qualidades técnicas e táticas às necessidades de quem está obrigado a sobrepor discrição à exuberância.

4 O brasileiro trouxe a solução discreta e eficaz para os problemas que outros criaram por falta de qualidade ou desenquadramento. Não é um jogador extraordinário, está ainda por confirmar se será um lateral-esquerdo de topo europeu e, aos 27 anos, também já não será alvo de negócio milionário, condição muitas vezes exigida pelos clubes portugueses na hora de investimentos avultados. Apesar de ainda não ter prestado todos os esclarecimentos para uma avaliação definitiva, bastou-lhe ser competente e dominar a função para ser muito melhor do que todos os antecessores desde Fábio Coentrão. Sobre os quais, antes mesmo de dar o primeiro pontapé na bola com a águia ao peito, já tinha vantagem que o punha a salvo de quase todas as dúvidas: o interesse do Real Madrid que quase o desviou da Luz para o Bernabéu.

Nani expôs-se à desinspiração

Face à apatia geral, Nani tentou ser o agitador; confrontado com o desacerto nunca se deu por vencido. Frente a Israel, teve a coragem de desafiar a evidência de que pouco ou nada lhe sairia bem. Não se escondeu, não aligeirou responsabilidades, nunca desistiu de ser a mola impulsionadora da equipa. O resultado foi o que se viu: perdeu-se em ações junto às linhas, somando erros e imprecisões, entregue a uma revolta crescente e à confiança quase irresponsável no seu talento. O que o deixou ainda mais exposto à enfermidade de que padeceu toda a equipa e não só ele: a desinspiração.

Dar ou não dar golo a Ronaldo

Nélson Oliveira não tinha as melhores condições para fazer golo – descaído para a direita, o risco de falhar era grande. Apesar de tudo tentou o chapéu, assumindo o risco de concluir o lance quando tinha Cristiano Ronaldo isolado, na zona central, pronto para um golo fácil, que faria o 2-0 e garantiria a vitória. Não é a primeira vez que o ponta-de-lança revela esse instinto pouco solidário mas compreensível atendendo à juventude e à função que desempenha em campo. Se sentir que tem 1% de hipóteses de fazer golo não dá a bola a ninguém. Talvez só à mãe. E mesmo a ela...

Uma alternativa a Fábio Coentrão

Antunes mostrou que, longe dos olhares mais indiscretos, mas como titular absoluto do Málaga, é um projeto em fase de conclusão. Comete cada vez menos erros, evidencia confiança extraordinária em tudo quanto faz e, mais importante, revelou autoridade em representação de Portugal, como par das grandes estrelas. Consolidadas as qualidades que sempre lhe foram reconhecidas (boa articulação motora e um tiro fortíssimo com o pé esquerdo), juntou-lhe saber, tranquilidade e inteligência no cumprimento do senso comum. Aos 26 anos, é cada vez mais uma excelente alternativa a Fábio Coentrão.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade