Só Carlos Martins
Chegou aos 30 anos como se tivesse vivido toda a carreira sob avaliação permanente; como se fosse jogador sem passado e não pudesse exercer sem prestar contas semanais a uma espécie de tribunal do Santo Ofício, que tanto pode ilibá-lo (sabe-se lá de quê) ou condená-lo ao degredo (vá lá saber-se porquê). Habituou-se a fazer prova de vida aos olhos de inquisidores desconfiados, sempre prontos a recorrer ao lugar-comum de que é bom, sim senhor, mas não tem cabeça, indecência que o acompanha desde que chegou a sénior – como se fosse possível reduzir a complexidade da afirmação ao mais alto nível a argumentos tão primários e por vezes indignos. Carlos Martins não é o milagre genético dos deuses maiores do futebol mas é uma raridade feita de talento, panorama, visão, coordenação, técnica e habilidade. Quando se aproxima do esplendor, como agora na pré-época, é mais fácil detetar-lhe as melhores qualidades, a principal das quais o modo inteligente como acrescenta à bola a malícia e o perigo que não tinha antes de chegar-lhe aos pés.
Carlos Martins é um condutor que alimenta o senso comum e transporta soluções para desestabilizar a rotina; faz o que deve nas zonas neutras e ilumina os caminhos de acesso ao golo; é perfeito a executar o óbvio e mágico a inventar preciosidades na exploração de espaços vazios. Orientado por geometria de linhas retas e imaginação com pinceladas dispersas de génio, conjuga como nenhum outro jogador português lógica e fantasia. Sendo mais artista (relação de amor com a bola) e menos equilibrador (insuficiências no jogo defensivo), não é normal ver um futebolista que cumpra a função com tantos argumentos técnicos e táticos. Se Witsel abandonar o Benfica, só Carlos Martins pode ser esse 8 com coisas de 10, porque nenhum outro elemento do plantel encarnado ocupa a função do belga com tanta eficácia e brilhantismo.
