Só faltava Vinokourov!
Não há mais paciência para aturar o ciclismo actual. Se dúvidas existissem, a notícia do controlo positivo do cazaque Vinokourov acaba de as dissipar: esta modalidade tão espectacular, com milhões de adeptos espalhados por todos os cantos do planeta, é uma mentira pegada. Ver o Tour, hoje em dia, já nem para entreter serve. Mais do que discutir quem será o vencedor da prova, a dúvida, agora, é saber quem e quando será desmascarado. É uma tristeza.
Bem sei que o flagelo do doping não é um exclusivo do ciclismo. Antes fosse, pois tal significaria que todo o restante desporto estaria "limpo". Mas, por mais que isto revolte as pessoas ligadas ao universo velocipédico, a verdade é que não há modalidade com tantos casos de controlos positivos. Com a agravante da quase totalidade das grandes figuras dos últimos anos já terem sido "apanhadas na rede". E os pouco que escapam (como Lance Armstrong) não se livram das suspeições...
Concordo com todos os que responsabilizam os organizadores das corridas pelo facto de "construirem" provas cada vez mais duras e extensas. Mas, se isso poderá, indirectamente, "fomentar" o recurso às substâncias proibidas, a mim ninguém me convece que o doping deixaria de ser um problema tão bicudo se as etapas passasem a ter menos quilómetros ou passagens mais acessíveis pela montanha. O problema, independentemente da capacidade individual de cada um para ultrapassar os obstáculos naturais, é a necessidade de ganhar, de andar entre os primeiros, de justificar o salário.
Hoje, no ciclismo, o recurso aos mais variados métodos para ludibriar a verdade desportiva é uma prática generalizada. E eu só estou a repetir o que dizem os próprios ciclistas, não sonhei com isso. Sinceramente, não acredito na inocência de quem é "caçado", mas também rejeito que os outros - os que ainda aguardam vez para ver os seus nomes arrastados neste verdadeiro lamaçal - subam e desçam Pirinéus e Alpes só porque comerem bem, foram devidamente massajados, tomam suplementos vitamínicos ou andam cheios de força. Isso é conversa para adormecer crianças...
Que fazer perante um quadro tão cinzento? Só vejo três hipóteses, qual delas a mais radical...
1 - "Fechar" as competições profissionais por um determinado período, até que se possa fazer uma "varridela" efectiva na modalidade.
2 - Irradiar, logo à primeira infracção, quem, em busca de benefício próprio ou da sua equipa, manche o ciclismo.
3 - Deixar de sancionar todas as práticas dopantes, responsabilizando ciclistas, técnicos e médicos por tudo o que de negativo possa ocorrer a quem, voluntariamente, optar pela via do doping.
No entanto, como é evidente, a solução vai ser a do costume: o típico deixa andar, como se nada de estranho se estivesse a passar. Uma ou outra suspensão momentânea e prosseguimos para bingo. Aliás, para muito boa gente, isto não passa de um assunto altamente empolado pela imprensa.
Tal como já fizeram muitos jornais e televisões por essa Europa fora, também eu me declaro "fechado" para este ciclismo. O tema, por agora, deixa de me interessar. E nem a eventual confirmação do uso de doping do actual líder do Tour (Rasmussen) me merecerá qualquer comentário. Até porque, na essência, já o fiz neste artigo...
