Sporting – que governo?
Eleições antecipadas no Sporting são uma inevitabilidade. Ando a dizê-lo praticamente desde que Godinho Lopes venceu o último acto eleitoral, que correu debaixo de polémica e sob forte suspeita, no que concerne à contagem dos votos. Houve candidatos que admitiram "irregularidades" e Bruno de Carvalho, que ficou a escassa distância de Godinho Lopes (360 votos), nunca se conformou. Nem era preciso ter eclodido o "caso Cristóvão" para se perceber que, a curto prazo, a nova presidência do Sporting (e da SAD) teria de se submeter a um processo de relegitimação. Havia que escolher o "timing", para não acentuar clivagens e instabilidade à medida que a equipa de futebol mais representativa dos leões tentava cumprir o seu papel, até porque Godinho Lopes, que se havia apresentado a eleições com a "lista possível" – e não com uma equipa escolhida por si próprio – depressa concluiu que se encontrava no meio de um "saco de gatos". Uma equipa com motivações e sensibilidades muito diferentes, cada qual com o seu projecto para o Sporting. A (macro) liderança de Godinho Lopes encontrava-se fortemente condicionada por (micro) lideranças, uma das quais se havia de destacar – em determinação e perseverança, através de uma atitude menos romântica e mais musculada –, a de Paulo Pereira Cristóvão (PPC).
Ora foi exactamente PPC, que nada tinha a ver com a SAD mas sempre se achou muito perto da jurisdição do futebol leonino, não apenas por deter o pelouro das infraestruturas e património, mas também pela relação estabelecida com as claques, por delegação do Conselho Directivo, a achar-se envolvido num caso que começou por ser denominado "caso Cardinal" até se perceber que, alegadamente, o árbitro assistente havia caído numa cilada com o objectivo de o afastar do jogo Sporting-Marítimo, a contar para a Taça de Portugal. A forma como PPC geriu este dossiê, saindo por cima, temporariamente, de uma situação que aconselharia ao recato, fragilizou ainda mais a presidência de Godinho Lopes. O "godinhismo" conhecia um dos seus momentos mais difíceis, depois de ter deixado cair a figura que havia sido escolhida para protagonizar a grande mudança no futebol do Sporting (o treinador Domingos Paciência), e só não ficou numa situação mais cedo insustentável porque Ricardo Sá Pinto conseguiu "unir as tropas" e, com essa união, dar alento aos adeptos leoninos, estendendo praticamente até ao fim uma época que muito cedo começara a ficar comprometida.
Com a inflexibilidade de Cristóvão, o caso ganhou dimensão de "guerra de poder". E não se pode governar quando o terreno está minado e a solidariedade é apenas uma força de expressão. Pode o Sporting, nesta fase, por causa das negociações com os investidores e da final da Taça de Portugal, negar o cenário de eleições antecipadas. Mas não há outro caminho. Godinho Lopes não tem alternativa: ou refaz a sua equipa para assegurar mínimos de governabilidade ou será preferível abdicar da sua condição de "presidente sem poderes". Está na hora, Sporting. Não há mais tempo para hesitações. O desgoverno é grande.
Nota – O "chumbo" do alargamento representa o maior acto de lucidez protagonizado pela FPF nos últimos anos. Ainda bem que Fernando Gomes e Pinto da Costa convergiram nesta matéria.
